
Hoje em dia entramos tão facilmente dentro do mundo do outro, que às vezes perdemos a referência acerca do nosso próprio!
Viagens, fotos, sorrisos, chegadas e partidas, festas, dramas, protestos, comemorações e reclamações, dizeres e reflexões variadas que nos permitem viajar pelo outro, pelo intangível, pelo inexistente com facilidade jamais experimentada.
De vez em quando tenho a sensação de que estou sendo levada aos poucos pela correnteza leve e despretensiosa da beira do mar, que me afasta da areia da terra firme em direção às águas profundas da comparação, da ambição, da imaginação e da solidão de águas profundas. Quando me percebo afastada demais, bato os braços de volta para a margem, como se acordada de um sonho. Estranha sensação!
Na vida virtual, qualquer realidade é passível de ser cuidadosamente construída! Qualquer realização pode tomar a dimensão do olhar do observador. A criação ganhou asas jamais vistas! Suposições, desilusões, reaproximações!
Há 3 semanas, algumas colegas da minha adolescência tiveram a ideia de reunir virtualmente nossa turma de colégio / segundo-grau / ensino médio. Pode chamar do que você quiser!!! Devem ter demorado 3 dias para achar e “re-unir”, mundo afora, umas 25 pessoas dispersas há quase 30 anos. Siiim, eu disse trinta longos anos de separação. Que coisa maravilhosa! Que milagre tecnológico! Que feito sensacional! Que delícia reencontrar os queridos de tantas risadas e aventuras! Que maravilha passar horas combinando histórias diversas para interpretar quem é quem! Quem é esse? Quem é aquela mesmo? Cadê o fulano? Quem é esse ao seu lado na foto? Lembra de mim? Hahahahahaha!!!! Passei horas conectando nomes a apelidos e rostos, associando cabeleiras e carecas. Me assustando com os cabelos brancos – principalmente com os meus!
Euforia inicial transformada em “Bom dias” e mensagens carinhosas me fazem pensar que aquelas pessoas não existem mais! Somos outros. Transformados. Renovados. Mas, por dias mergulhamos em uma realidade virtual poderosa, capaz de nos transportar da segurança e estabilidade da areia para a excitação de uma nova e desconhecida jornada em alto mar! Capacidade poderosa! Conectar, desconectar, reconectar em segundos.
Invariavelmente, veio a vontade de reencontrar, rever, abraçar e gargalhar. Gargalhar de um tempo recriado virtualmente, em nossa memória e imaginação. Básicos, previsíveis e humanos que somos!
Será a navegação o ópio do nosso tempo? O quão distante seguimos mar adentro, deliciosamente embalados pelas marés da nossa imaginação?
Sigo refletindo acerca da realidade transformada pela ilusão de um mundo imaterial, feito de ondas que me balançam e me transportam, um tanto quanto tonta, do meu mundo próprio para tantos outros quantos for a minha vontade de viajar!
Simone Maia, viajando, em 26 de julho de 2016.