MEUS CABELOS BRANCOS

whatsapp-image-2016-11-13-at-14-35-54Tenho meus cabelos belamente brancos desde antes dos 40. Não sou modesta quanto aos meus cabelos! Eu os acho um charme e, quanto mais brancos se tornam, mais os acho lindos. Eu sei: a falta de modéstia é algo condenável. Mas sinto muito: eu amo meus cabelos brancos!

As pessoas me perguntam como meu cabeleireiro chegou na cor, qual o número da minha tinta, como eu faço para mantê-la, etc e tal. Minha resposta de sempre: “Meu cabeleireiro é meu amigo Fred Fick há 20 anos, esse cabelo dá um trabalho danado para manter, e eu não sei o número da tinta”. E o diálogo continua até eu convencer o interlocutor de que a coloração só é possível porque meu cabelo é verdadeiramente branco. Muito branco! E que a tinta é só para igualar um pretinho que insiste em não embranquecer. Parece um kipá judeu! Trem chato!!! Por muito tempo, andei com cartões de visita do Fred junto aos meus próprios cartões na bolsa!!!

Meus cabelos brancos são cheios de alma – me conectam ao meu pai, de quem sou uma cópia feminina. Me lembram do meu avô Enoch, quem eu sempre achava sentadinho no mesmo banco da igreja pela linda cabeleira branca! Ele sempre estava lá antes de nós!

Aahh! E meus cabelos brancos também me renderam um apelido: “Miranda”. A-D-O-R-0!

Também tenho rugas. Muitas! “Sua pele é muito envelhecida para a sua idade!”, diz a dermatologista cheia de soluções para mim! As rugas também são as mesmas do rosto do meu pai. E assim como meus cabelos brancos, estão aqui faz tempo! Uso mil cremes há mil anos, gasto a maior grana preta com eles, não saio sem protetor solar, não durmo de maquiagem, uso as melhores marcas de maquiagem do mercado, e blá blá blá e não adianta nada! As rugas não me abandonam por nada nesse mundo! De verdade? Não ligo pra elas. Nunca liguei! De vez em quando minha bela amiga médica Carol me convence a colocar um botox de leve! Hahaha! Bela Carol!!! No casamento da minha filha Luciana, me deu a aplicação de botox de presente, dizendo que “a mãe da noiva tinha que estar com a testa lisinha!” Obrigada, Carol!

Tanto os meus cabelos brancos quanto as minhas rugas incomodam mais às pessoas à minha volta do que a mim mesma! Volta e meia recebo uma indireta ou uma direta acerca de algo que devo fazer. Não faço nada! Desculpem, amigos!

Sempre lidei bem com o envelhecimento. Acredito que isso se explica pelo fato de que sempre curti e aproveitei muito a vida em cada uma das suas fases. E a gente fica velha e velho mesmo. Ponto.

Até que… os 40 e poucos anos chegaram. E chegaram rasgando. Ameaçando. Me ameaçando. Muito. Comecei a olhar demais para os corpos lindos das jovens, comparando-me com elas, comecei a reparar que algumas amigas mais velhas do que eu não tem nenhuma ruga e que ninguém deixa o cabelo ficar branco. Cabelo branco? Que horror! Não pode ter nem uma raizinha. E tem que ser escuro como o de uma menina nova. E de preferência comprido para manter a juventude. Percebi, repentinamente, que sou uma mulher totalmente fora de moda. Aliás, nunca sei o que está na moda! Compro roupas clássicas de excelente qualidade e elas duram anos!!! Todos que convivem comigo sabem que eu sou a mulher-da-roupa-repetida. Mas comecei a reparar nisso também: minhas amigas coloridas e sempre de roupas novas e atuais! E de repente, não mais que de repente, ao final deste cruel processo, enxerguei uma senhora enrugada de cabelos brancos, desatualizada, de roupa velha e feia em frente ao espelho.

Fase horrível. Triste. Cansativa. E inútil. Muito inútil. Jamais voltarei a ter a pele lisa, os cabelos longos viçosos de uma bela moça de 20 anos. Jamais voltarei a ter o belo corpo que enlouqueceu meu então namorado, meu marido há 25 anos! Nunca! Passou. Não tem jeito. Posso malhar 3 horas por dia, usar todos os cremes que meu dinheiro puder comprar ou usar técnicas de deixar a cara lisa e que dão um resultado que eu acho ridículo. Odeio aquelas caras femininas artificiais de produção em série, com as bochechas falsas e aquelas bocas de pato que me dão vontade de rir e me fazem pecar porque eu sempre solto um comentário bem humorado e bem maldoso. Deus que me perdoe antecipadamente.

Durante esta fase triste, me perdi e tive que me procurar. Não sabia para onde eu havia ido. Perdida fiquei por um bom tempo. Amarga, irritada e odiando o passar dos dias. Me lembro uma noite na casa dos meus queridos amigos Marcelo e Vivi. Os dois alegres, falando que a vida estava boa, e, entre uma taça de espumante e outra, contando como estava sendo gostoso amadurecer. Eu respondi, rebelde e inconformada, que estava achando uma merda. Excuse my French. Reclamei. Protestei. Xinguei e expliquei minha ira. Como resultado, devo ter ganho mais uma ruga de cada lado. Adiantou nada, pois os meus dias continuaram a contar normalmente.

Ontem Marcelo e Vivi vieram jantar aqui em casa depois de uma peça em um teatro que fica logo ali ao lado. Em meio a mais taças de espumante, assuntos gostosos e muitas risadas, Marcelo pergunta: “Si, e você? Está lidando melhor com o envelhecimento?” Levei um leve susto inicial, mas não precisei pensar nem 10 segundos para responder sinceramente: “Sim, amigo. Estou ótima!”.

Para completar, hoje meu Amor leu alguns textos em Eclesiastes para mim. Rimos muito juntos porque Salomão foi um cara muito sábio que teve a cara de pau de dizer na lata coisas do tipo: “curte a sua vida aí, aproveita bastante porque todo mundo vai morrer – o bom e o mau vão morrer”.  As palavras de Salomão, a ressaca das férias, as 2 últimas semanas inteiras e tranquilas em Brasília (coisa rara!) e a pergunta do meu amigo Marcelo me fizeram dar sequência à reflexão e chegar à feliz constatação: A FASE TERRÍVEL PASSOU!!!! Graças ao bom Deus passou! Coisa chata era ficar agarrada por um fio a uma juventude que já acabou. A fase horrível passou porque larguei mão da busca cansativa de uma Simone na outra, a qual simplesmente não existe. Eu não existo nas minhas amigas de pele linda. Eu não existo nos belos corpos jovens das meninas. Eu não existo nas lindas imagens das revistas. Eu não existo no meu passado jovem.

A fase passou porque me reencontrei.

Me reencontrei na tranquilidade da varanda da minha casinha com a vista mais linda que eu poderia querer.

Me reencontrei na plenitude e na paz da companhia maravilhosa do meu Amor, enquanto compartilhamos maravilhosos dias tranquilos e felizes.

Me reencontrei na lembrança e na prova viva de que Deus caminha todos os dias ao meu lado, cuidando com carinho de mim.

Me reencontrei feliz e realizada dentro dos vôos corridos de idas e voltas maravilhosas e cheias de energia de Brasília para São Paulo, entendendo que de fato tenho duas casas.

Me reencontrei no valor dos meus cabelos brancos e na segurança do meu olhar marcado por muitas rugas, os quais chancelam a experiência necessária para compartilhar minha vida e meus saberes com tantos líderes em empresas onde eu jamais previ que poderia estar!

Me reencontrei na companhia alegre e divertida das dezenas de amigos que me fazem companhia ao pôr do sol, enchendo a minha varanda de som, de amor, de alma!

Me reencontrei na beleza da juventude da Luciana e do Pedro Henrique, meus filhos lindos e muito amados!

Me reencontrei nas múltiplas idas à praia ao longo de 2016 para visitar os pais mais maravilhosos do mundo, meu irmão amado, minha cunhada Jaque querida e meus sobrinhos carinhosos Luisa e Bernardo!

Me reencontrei nos meus livros, no meu gosto pela cozinha, na arrumação da minha casa, na minha nova horta de manjericão a partir da mudinha da minha querida Anna, nas minhas orquídeas floridas nas árvores em frente à varanda com a vista do pôr do sol mais linda que eu jamais poderia querer!

Me reencontrei na felicidade de me permitir ser simplesmente quem eu sou e quero ser, sem a luta inglória de tentar ser o que jamais, aos 45 anos, eu conseguirei ser: jovem!

O tempo não rouba nossa essência, tudo isso faz parte de um ciclo. Permanecemos nós mesmos, só que mais velhos. Então, em vez de esconder suas marcas, comemore uma a uma. (Ana Holanda, Vida Simples, edição 177, 2016)

Simone Maia, em Brasília, 12 de novembro de 2016.

Um comentário sobre “MEUS CABELOS BRANCOS

  1. Amiga(o)!!!!!!.. tem outra coisa: Todos nós estamos indo juntos !!! Agradeço a Deus o Presente de ter você por perto …. Te amamos, em qualquer versão ..kkkk

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