Minha Quarentena

Vaca

No início resisti um pouco. Afinal, por que eu, saudável e fora do grupo de risco deveria ficar confinada ao invés de trabalhar para manter as coisas rodando? Mesmo assim, ao sair do escritório no dia 17 de março, após ter minha viagem da semana cancelada pelo cliente, vim para casa e dei início à recomendação da OMS, dos governos e dos milhões de chatos nas redes sociais gritando #ficaemcasa na minha cabeça.

Obediente que sou, fiquei entre a minha casa e a casa da minha filha que é minha vizinha durante 24 dias ininterruptos e ontem saí pela primeira vez para ir rapidamente ao mercado. Deprimente. Mascarados na rua, distantes uns dos outros, é uma visão horrorosa. Melhor ficar em casa mesmo. Mas eu definitivamente não entendo porque temos que ficar TODOS presos, ao invés de selecionarmos com inteligência e seriedade aqueles que devemos proteger.

A expressão “confinada” me faz sentir como uma vaca idiota, parte de um rebanho de não-pensantes, agindo em cadeia por consequência de um governo ditador, autoritário e repressor, para o qual a liberdade de ir e vir simplesmente não existe.

Bem, mas certa de que a burra e ignorante do pedaço sou eu, e não os bilhões de seres humanos que estão voluntariamente confinados em suas casas, sigo aqui na quarentena, vivendo feliz! Até ontem.

A primeira semana foi fichinha: moro no paraíso, amo meu marido e estar com ele por vários dias ininterruptos é um presente pra mim; gosto de cozinhar, já sei trabalhar em home office desde sempre, faço reuniões e apresentações online como parte da minha rotina, lido bem com a solidão e o isolamento próprio da minha vida de consultora. Home office igual, só que com companhia. Muito interessante essa primeira semana!

Na segunda semana decidimos hospedar uma amiga amada que mora sozinha e não estava bem. A presença dela na nossa casa trouxe novas conversas e novos pratos na cozinha entre uma reunião e outra de trabalho. Ela entrou na nossa rotina e seguimos a segunda semana com muita chuva e um pouco de tristeza. Não gosto quando o sol não me visita! Mesmo assim cozinhamos coisas gostosas, caminhamos, bebemos vinho, rimos, choramos, nos irritamos. Ao final da segunda semana, comemoramos o aniversário dela com bolo de sereia com cobertura de chocolate feito carinhosamente pela minha filha e minha netinha e cantamos parabéns umas 10 vezes ao som do Bita. Um domingo feliz!

Na terceira semana voltamos a ser nós dois, com as visitinhas agora regulares da nossa netinha Amélie, pois papai e mamãe não tem mais a ajuda da maravilhosa babá e precisam dar aulas online! Quando isso acontece, a menininha bebê sai da escola virtual de lá e vem para o home office de cá! A troca de imagens dos pratos no grupo dos primos já ficou sem graça e a leveza de ficar em casa deu lugar a um cansaço horroroso por ficar entre 10 e 12 horas diárias em frente ao computador como mediador da maioria das nossas relações. E a semana voou. Sem graça. Sem sal. Mas com sol! Viva Deus!

E a quarta semana só seguiu: algumas novas perspectivas de trabalho e renda à vista, boa aceitação de algumas iniciativas digitais trazendo excitação para a rotina que já perdeu a graça. Aliás, detesto rotina. Quando meus filhos eram pequenos e a rotina era necessária, eu sempre dava um jeito de saborear uma quebra vez ou outra, com eles ou sem eles. Vou repetir: detesto rotina, detesto tudo igual, detesto ir para o mesmo lugar e fazer a mesma coisa todo dia. Imagina então a irritação que começou a acontecer FICANDO no mesmo lugar todo dia!

E aí ecoam as vozes da internet: gratidão, tempo de reflexão, oportunidade de repensar a vida. Que romântico! Minha quarentena é bem diferente disso. Não tem nada de romântico por aqui. Tem sim a percepção de que este é um tempo difícil e triste, durante o qual devo prestar ainda mais atenção ao meu redor. Talvez a ausência do romantismo seja porque eu já tente ter a vida em dia. A vida espiritual, principalmente. Não acho que Deus (ou o Universo para alguns dos meus amigos amados) esteja nos castigando e nos deixando “no cantinho” para pensar, como se fôssemos crianças. Por favor! Que inocência. Essa doença é pura consequência de um mundo mau, desregulado, distante do Criador. De governantes inconsequentes, criadores de bichos novos, um atrás do outro. Esse só foi piorzinho. Para nossa desgraça.

Talvez esteja infeliz desde ontem porque eu não preciso ficar aqui confinada para refletir. Eu reflito sendo livre mesmo! Eu amo sendo livre. Eu doo sendo livre. Eu ligo para os meus amigos quando me lembro insistentemente deles, porque creio que este é um sinal do Espírito Santo. Sempre tenho a casa cheia de gente que eu amo e de outras que nem amo tanto assim, mas precisam de companhia e amor. Não preciso esperar acabar a quarentena para abraçar as pessoas que eu amo e encher minha mesa de gente! Faço terapia regularmente para não acumular minhas amarguras e oro com bastante frequência clamando a Deus para me livrar do meu egoísmo, da minha impaciência, da minha impulsividade e da minha boca grande e reclamona. Vivo refletindo. Vivo analisando se estou feliz e mudando para ficar feliz. Vivo correndo atrás da mudança de atitude quando acho que estou sendo uma pessoa horrível. E sou horrível sempre. Ninguém precisa me confinar para eu fazer essas análises.

Então, não tem oportunidade extraordinária pra mim não. Tem sim a privação da minha liberdade. Tem a irritação que acontece porque estou vendo tantas vidas em agonia, tantos perdendo empregos e tantos sonhos empreendedores ruindo. E me irrito mais ainda porque os salários de quem me manda ficar em casa estão garantidos até o fim da existência. Que tal fazermos um combinado? Os salários de todos os políticos e de todo o funcionalismo público só ser pago até maio e depois cada um tem que se virar para pagar boletos, igual o resto dos pobres mortais? Ai, que raiva. Está aí uma demonstração clara do meu pecado.

Bem, pra mim deu. Impaciente? Sim. Arrogante? Para alguns sim. Mas uma coisa é certa: não vou fazer coro com a humanidade para santificar um momento terrível em que o mundo se encontra.

Santidade acontece no dia a dia.

Amor acontece nos encontros todos e de todo dia!

Ajuda ao próximo é estilo de vida e não acontece por campanha.

Abraços? Dou muitos! Quem me conhece sabe!

Gratidão? Sei que tudo o que sou, tenho e faço é por misericórdia e graça do meu Deus Pai. Como não ser grata? Faço declarações de gratidão aos meus clientes e declarações de amor à minha família quase todos os dias.

Amo, honro, respeito e valorizo meus pais idosos como princípio. Não preciso de vírus nenhum para me preocupar se eles estão bem e felizes e seguros.

Propósito de vida já tenho faz tempo!

Amigos à mesa tenho incontáveis. Obrigada, amigos-irmãos amados!

Deus e esperança tenho sempre! Vez ou outra sou discriminada no mundo dos negócios por isso.

Dívida? Já trabalhei por 7 anos só para pagá-las. Vou ter de novo? Talvez! Estou preocupada? Não! Se eu dever, vou dever junto com a maioria das pessoas. Tudo bem também!

Paciência? Tenho pouca por natureza.  Vou aproveitar esses dias para desenvolvê-la. Antes de resolver fugir do meu próprio paraíso para me encontrar livre novamente.

 

Simone Maia, 25º dia de quarentena por Corona Vírus.

Brasília, 11 de abril de 2020.

 

Abra também seu coração e mente...