Saudades da Quarentena

ponte jk

Vou sentir saudades da quarentena.

Saudades de dormir ao lado dele todas as noites. Saudades de acordar devagar, curtir o cheiro do café preto exalando da cafeteira e dos ovos mexidos quentinhos na varanda com a vista linda da cidade.

Saudades da netinha correndo e pulando no meu pescoço para o beijo melado que marca a chegada da alegria. Saudades da filha passando por aqui para deixar e buscar, no meio da semana sem correria.

Vou sentir saudades do meu home office em boa companhia. Da simplicidade das reuniões virtuais acompanhadas da humanidade própria da vida como ela é. Todas as refeições saudáveis e acompanhada! Nem nos meus melhores sonhos previ tal alegria!

Aqui, sinto falta da correria. Mas já sei que na correria vou sentir falta daqui. Falta de não ter que sair e mesmo assim poder trabalhar o dia todinho com as pessoas e as coisas que eu gosto. Vou sentir saudades de caminhar descalça pelo belo jardim de casa enquanto trabalho ao telefone. Sem ninguém me julgar porque o canto dos passarinhos do Paraíso Verde, que é como eu apelidei nossa casa em Brasília, está atrapalhando a “call”. Vou sentir muita falta de não ter vergonha dos passarinhos do meu home office.

Vou sentir saudades das pessoas falando de amor e compaixão como o Mestre fala. Da solidariedade expressa nas ajudas que vem e vão em todas as direções. Das declarações emocionadas pelas telas dos nossos aparelhos cheios de quadradinhos que revelam a excitação de quem pode ver quem ama. Viva a tecnologia! Obrigada Deus porque agora a turma da resistência não vai mais torrar minha paciência porque meu celular é parte integrante do meu corpo e a mochila do meu computador mais parece um casco de tartaruga.

Sentirei falta das intermináveis taças de vinho que acompanham as delícias que saem da minha cozinha. Das noites batendo papo com ele no sofá, sobre os assuntos que geralmente não temos tempo pra falar.

Estou com saudades dos meus amigos. Não de falar com eles. Mas de cozinhar pra eles e depois dividir a mesa com eles. Saudade dos abraços intermináveis que a gente troca só porque a gente se ama.

Estou com saudades do meu filho. De rir com ele. De dividir o apartamento do meu Paraíso Cinza com ele. De desembarcar rápido e cruzar correndo o aeroporto porque ele já está fazendo a curva do desembarque para me pegar e irmos jantar em algum lugar da melhor cidade gastronômica da América do Sul.

Estou com saudades da quietude dos voos sem internet. Que me conduzem às salas de treinamento barulhentas e cheias de gente sentada bem pertinho. Das conversas de desenvolvimento ao vivo e em cores, que alimentam a alma e a mente. Saudade da parte mais gostosa do meu trabalho.

Mas quando toda essa saudade passar, e vai passar, vou sentir saudades da minha filha. Vou sentir saudade dessa outra saudade que vai ficar. E isso eu aprendi há 30 anos: se um dia a gente se mudar, vai passar o resto da vida sentindo saudades.

Saudade é coisa de quem se movimenta. Saudade é coisa de gente que se joga e vai pra arena, como diz a Brené Brown. Saudade é coisa de quem gosta de viver intensamente. Saudade é coisa boa! Saudade denuncia a felicidade. Saudade revela a plenitude dos momentos que vão passar. Bem-aventurados os que sentem saudade!

Bom confinamento para você! Espero que você também sinta saudades do seu.

 

Abra também seu coração e mente...