Há cinco anos vivo em duas cidades. Me divido entre a capital política e a capital financeira aproveitando o melhor dos dois mundos que me são oferecidos por cada uma delas. Dois paraísos, como costumo dizer: o primeiro o meu “Paraíso Verde” e o segundo o meu “Paraíso Cinza”. Uma casa em cada lugar, um filho em cada ponta, uma vida integrada no vai e vem dos vôos que me levam e trazem na maior alegria, seja qual for a direção. Clouds & Heaven!
Em meio a esse vai e volta gostoso, um dia levei um susto! Era dezembro de 2019, eu estava há dois dias trabalhando em um hotel em Campinas, entupida de remédios que combatiam uma gripe forte acompanhada de uma bronquite leve que, de tão cansado e gasto, meu corpo não havia conseguido combater sozinho. Fato raro. E lá estava eu totalmente drogada para dar conta de escalar o restinho das montanhas as quais Deus tão gentilmente me presenteou ao longo do delicioso ano de 2019.
No quarto do hotel ao final de um dia produtivo, feliz porque estava melhorando da saúde e havia conseguido finalizar um trabalho importante, de repente, do nada, me senti extremamente solitária. Senti, de súbito, a solidão pela primeira vez na vida, aos 48. Totalmente só e perdida no mundo. Naquele momento, em uma pequenina fração de tempo, nada fazia sentido. Nada. Achei estranho, respirei fundo, e tomei coragem para olhar atentamente pra dentro e lá estava ela: uma vontade de mudar um pouco a dinâmica da dualidade geográfica da minha vida.
Após alguns dias de reflexão corajosa, oração e conversas com meu marido e melhor companheiro de vida, decidi reprogramar 2020 para inverter meu percentual de permanência em cada uma das cidades – seguiria vivendo nas duas, mas de maneira invertida: mais tempo em Brasília e menos tempo em São Paulo. Essa decisão implicaria em um grande esforço profissional, a fim de “virar” minha vida profissional na mesma proporção da minha vontade.
E começamos! Janeiro e fevereiro seguiram quentes, agitados, dentro do plano. Março chegou fervendo. E eu já poderia finalizar minha história por aqui, pois a sequência do enredo todo mundo (literalmente! Hahahaha) já sabe.
Nos últimos cinco meses passei quase todos os meus dias sentada à mesa que vocês veem nesta foto, que é a varanda da nossa casa em Brasília. Na maior parte do tempo trabalhando, em alguns momentos curtindo as refeições em família, desenhando com minha netinha, ou apenas olhando a vista que é linda daqui. A foto foi tirada ontem, enquanto eu estava ao sol, tomando chá para combater os estranhos 14° às 11 da manhã por aqui. Estava simplesmente me esquentando no intervalo entre uma reunião virtual e outra, em pé olhando a cena “ao contrário”, observando meu Paraíso Verde a partir de uma perspectiva diferente, quando subitamente me senti tranquila, plena e profundamente em paz. E levei um susto de novo. Em uma nova pequenina fração de tempo me apercebi de que a motivação do meu plano para 2020 foi totalmente suprida em virtude da condição imposta pela pandemia. Sim, graças a ela e a consequente impossibilidade de viajar, sempre tenho companhia que amo, passo tardes inteiras me divertindo com a Amélie, recebo minha filha e genro para almoços corridos durante a semana (como aqueles que meus pais faziam para nós quando os meus eram os pequenos da vez). Este ano já tive os dois filhos reunidos ali mesmo na varanda por três vezes em sete meses. E vejam: eu não desfrutava dessa alegria com tanta frequência desde o longínquo ano de 2010, que foi o ano em que Luciana se mudou da nossa casa! Vejam só! Que pandemia essa…
E tudo isso me leva de volta à reflexão antiga que frequentemente faço: em que medida meus desejos e projetos me conduzem de forma disciplinada para o meu destino, ou é Deus quem planta antecipadamente desejos específicos no meu coração e gera na minha mente os projetos para que eu vá por onde Ele quer? Em última instância, o que faz um plano dar certo? Tem hora que os planos dão certo em situações tão inusitadas, que sou inclinada a crer que a segunda alternativa é o que acontece de fato. Obviamente que essa opção é válida apenas para aqueles que creem na soberania de um Deus sobre todas as pessoas e coisas que lhes acontecem.
Mas essa lógica de planejar não é automática. Deus pode cochichar algo pra mim e eu não perceber ou não me importar. Ou posso não querer – sempre tenho (e todos nós temos) a possibilidade de não querer. Contudo, tenho experimentado a alegria da realização do meu desejo transformado em planejamento anual de maneira tão intensa ao longo dos dias pandêmicos, que reforço a crença daquilo que mais quero na vida: que meus dias e anos sejam fruto da realização disciplinada de um plano sussurrado por um Pai que sabe muito mais que eu, que enxerga além e que cuida dos caminhos por onde eu ando. Quero a segurança de saber que o que eu “quero” é reflexo da escuta atenta dos cochichos amorosos e cuidadosos que recebo em meio à correria e os afazeres da minha vida normal, agitada e prazerosa.
Que eu possa aproveitar os novos sussurros que tenho ouvido durante a quietude dos muitos dias de pandemia para seguir planejando a execução daquilo que já foi um dia sonhado pra mim.
Brasília, 08 de agosto de 2020.