Sobre Sonhos

ELE

O ano era 1985 e o mês era dezembro, o que para mim era um pesadelo. Apesar de eu sempre carregar estampado na cara um persistente e maroto sorriso, tratava-se apenas de uma camuflagem social, para atrair vítimas ou tentar resgatar algum benefício sendo simpático: essencialmente um meio de sobrevivência de um jovem órfão de 17 anos de idade. A angústia que me abatia era por conta da proximidade das festas natalinas, pois o último mês do ano era pouco festivo, pois além de lembrar-me que eu não tinha nem onde nem com quem passar o Natal, ainda por cima era aniversário do suicídio de minha mãe, há exatamente uma década.

ELE

Minha namorada à época, sete anos mais velha, também era sozinha na cidade. Ela trabalhava numa loja de roupas bem chique no Parkshopping, não me lembro se era Caixa ou se Gerente, ou sub-gerente… Contudo, naquele ano ela recebeu inusitado convite de última hora das filhas do dono da loja, para passar o Natal com a família deles. Por certo, hoje penso, deveria ela ser pessoa bem-quista na família, ou jamais chegaria tão íntimo convite. Quando soube me entristeci, porque, se já não tinha família, agora nem namorada teria para passar o Natal. Para meu entusiasmo, no dia anterior ao Natal, ela me contou que disseram pra ela “que o namorado também estava convidado”.

ELE

Apesar de novo naquela Brasília e tentando entender seus códigos culturais, eu já sabia bem da fama daquele bairro. Eu achava Lago Sul um nome mais que pomposo, o próprio em si – como se isso fosse possível – carregava certa pretensão, soberba e ostentação. Lago era coisa de rico. Sul era a parte rica das cidades. Um bairro residencial longe do barulho, do trânsito e dos problemas da cidade. Arborizado, bonito, silencioso, ruas largas, asfalto como teclas de ébano, bem policiado e cheio gente bonita em carros intangíveis. Na noite do dia 24, chegamos no fascinante Lago Sul com nossas melhores roupas. Estacionei na frente da deslumbrante casa e descemos da moto bem molhados, pois chuviscava persistentemente naquela noite. Tentamos nos secar com o que tínhamos. Não lembro mais de muita coisa daquela noite, além daquilo que penetrou minha retina e tatuou minha memória: sentado alegre – e já meio embriagado – numa larga poltrona da ampla sala, à luz de muitas e muitas velas, lá estava o patriarca, barrigudo, distribuindo presentes para todos da casa, fazendo graça, muitas piadas, algumas com e outras sem graça, mas todos riam. Eram mais de vinte pessoas ali e todos ganhavam muitos presentes. A mesa além de farta era colossal, com bebidas e comidas que eu sequer conhecia direito. Parei de ouvir a música, os risos, as falas excessivas, mergulhei em meu interior… Era muita distância financeira, muita distância educacional, um fosso cultural… distância implacável. Fosso aparentemente intransponível. Sem qualquer resignação disse a mim mesmo: “É isso. É isso o que eu quero. É por isso que vou trabalhar e batalhar a partir de hoje nesta cidade. Quero uma família, assim. Quero filhos com motivos para sorrir. Quero morar no Lago Sul. Vou ter uma casa assim e vou dar muitos presentes. Vou um dia fazer uma festa nesta dimensão de fartura. Amém!” Não sei se aquilo era mesmo uma oração, e se fosse, não sei se rezava para Deus ou para mim mesmo. Eu sabia que estava partindo do zero, aliás, do “menos dez”, e o desafio seria colossal. Dali em diante, trabalhei em silêncio, guardando meu sonho em absoluto segredo.

ELE

As décadas seguintes foram repletas de altos e baixos, bem-vividas. Aventuras existenciais construídas do jeito que eu sabia, podia e conseguia. Casei-me com a pessoa mais certo que eu poderia escolher – e confirmei isto anos mais tarde. Tive dois filhos. Abri e fechei empresas. Tive dinheiro. Perdi tudo. Reconstruí. Eduquei e… Hoje quando subo na cobertura de minha casa no Lago Sul para assistir ao mais lindo pôr do sol de Brasília, com a cidade espraiada sob meus pés, apenas louvo. Não canso de louvar. “Meu bem, isto é inacreditável!” O improvável milagre se tangibilizou.

Assinam Ele & Ela.

Abra também seu coração e mente...