Hoje não fui à igreja pela manhã. Entre a alegria de ir e a vontade de ficar, venceu a segunda – fato que me fez refletir, pois ao longo dos meus 46 anos de vida, raros são os domingos em que não tenho vontade de ir à igreja pela manhã. Por que eu não quero ir??? Até o Google já sabe e fez questão de me lembrar quanto tempo eu levaria até a igreja, mesmo depois de passada a hora usual de sair de casa!
Levantei, arrumei cuidadosamente a nossa cama e ao terminar pensei: “Simone, comece pela bicicleta. Tem viajado muito e fazem 2 semanas que você não pedala”. Eu mesma respondi: “Aaaahhh não… que saco. Bicicleta? Não fiquei em casa para andar de bicicleta. Não quero fazer nada”. Fui ao banheiro, olhei no espelho, me deparei com a imagem engraçada do cabelo todo zoado depois de ter ido deitar com ele molhado e me convenci: “Aproveita que esse cabelo tá uma zona, enfia aquele capacete na cabeça e vai logo pedalar um pouco”. Pronto. Depois de uns 5 minutos de diálogo de convencimento interno, coloquei a calça de bundinha (ridícula aquela calça! Hahahaha), calcei o tênis, peguei o celular com os fones de ouvido, liguei a música, enfiei o capacete e saí pelo portão de bicicleta. Claro que olhei a hora! Sempre cronometro para ver a hora de terminar a tortura.
Saí morro acima e morro abaixo e aos poucos a sensação gostosa de estar fazendo o que eu deveria fazer me invadiu. Tentei me desprender do tempo que faltava para terminar a tortura e comecei a curtir o fato de estar cuidando da minha saúde, respirando a brisa gostosa que sopra em Brasília durante a época da seca e segui meu passeio.
Ao voltar para casa, pluguei o celular na JBL e pulei no banho. Banho longo. Na sequência, vagarosamente curti um ritual de esfoliações e cremes, sequei cuidadosamente o cabelo, passei perfume e o “pretinho” dos olhos e de repente me dei conta do quanto eu não tenho prestado atenção no que estou fazendo. Há quanto tempo eu não tomava banho e usava um tantão de cremes cheirosos – um para cada curva da cabeça aos pés, como se não houvesse amanhã e nem nada para fazer depois? Há quanto tempo eu não entrava no banho sem pensar na merda do racionamento de água brasiliense, depois de ter me livrado do racionamento de água paulistano? Sim! Sou dessas que fica com a consciência pesada por não tomar um banho de 2 minutos e por molhar minimamente as orquídeas nas árvores do meu jardim enquanto a companhia de água apita na minha orelha que a água do planeta vai acabar e vamos todos morrer secos.
Terminei o ritual. Longo. Cheiroso. Prazeroso. Senti fome! Fiz uma xícara de café, mexi os 2 ovos nossos de cada dia e sentei na bela varanda da minha casa com um livro na mão. Que delícia! Aos poucos, enquanto lia, minha mente desviou das páginas do livro para a sensação deliciosa que eu estava sentindo. Corri e peguei o computador para registrar a revelação repentina daquele momento:
“Fiquei em casa para encaixar a alma no corpo”!
Encaixar a alma no corpo para sentir o momento, seja ele qual for. Aquietar. Encaixar a alma no corpo para parar de ficar doente. Encaixar a alma no corpo para descansar. Encaixar a alma no corpo para curtir a vida.
A reflexão da manhã, não por acaso, vai ao encontro da minha necessidade dos últimos dias, de interromper o automático da vida para prestar atenção naquilo que está acontecendo comigo e ao meu redor. Digo isso porque entendo que a minha virtude tem feito uma sombra enorme na minha rotina. Explico: a disciplina, virtude que tenho de sobra, me leva a cumprir minhas obrigações e fazer o que precisa ser feito sem refletir muito sobre a raiz, o propósito ou a conveniência daquilo que faço. Assim, convivo com pessoas que não me trazem alegria, sobrecarrego meus dias com compromissos sociais que na verdade não me dão tanto prazer, aceito trabalhos diversos que me fazem viajar como um piloto, aceito tudo que me oferecem e por aí vai!!! Por que? Pra que? Como?
Na verdade, a origem da minha crise está um pouco (ou totalmente) relacionada à minha educação cristã quanto à virtude, ao perdão e à resiliência. À ordem de tentar amar o povo que me trai, tentar fazer as coisas que não quero, tentar perdoar aqueles que me enchem o saco com palavras ou atitudes ofensivas. É difícil demais ser como Cristo ordena que eu seja! Difícil dar a capa para o fdp que tenta arrancar a minha blusa o tempo todo. E mais difícil ainda é viver com um representante de Cristo me lembrando, diuturnamente, que devo ser como Cristo foi. E o pior: me lembrando por atitudes, e não por palavras. Aff… isso beira o impossível!
O que me resta fazer? Prestar atenção!!! Sair do automático para curtir meus amigos de verdade! Beber os vinhos que gosto! Conviver mais com meus pais, lindos, que amo tanto! Ir visitar mais meu irmão, um dos homens de Deus mais virtuosos que conheço! Ser mais amável com meu amor Luciano, que me enche o saco apenas de vez em quando (como agora, nesse minuto, balangando sobre eu estar terminando esse texto na mesa do almoço só porque eu quero), curtir mais os meus filhos criados, lindos e responsáveis, que são a maior alegria que tenho sobre a face dessa Terra estranha e louca!
Saia do automático e carpe diem, Simone!!!!







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