Fiquei em casa para encaixar a alma no corpo!

Hoje não fui à igreja pela manhã. Entre a alegria de ir e a vontade de ficar, venceu a segunda – fato que me fez refletir, pois ao longo dos meus 46 anos de vida, raros são os domingos em que não tenho vontade de ir à igreja pela manhã. Por que eu não quero ir??? Até o Google já sabe e fez questão de me lembrar quanto tempo eu levaria até a igreja, mesmo depois de passada a hora usual de sair de casa!

Levantei, arrumei cuidadosamente a nossa cama e ao terminar pensei: “Simone, comece pela bicicleta. Tem viajado muito e fazem 2 semanas que você não pedala”. Eu mesma respondi: “Aaaahhh não… que saco. Bicicleta? Não fiquei em casa para andar de bicicleta. Não quero fazer nada”. Fui ao banheiro, olhei no espelho, me deparei com a imagem engraçada do cabelo todo zoado depois de ter ido deitar com ele molhado e me convenci: “Aproveita que esse cabelo tá uma zona, enfia aquele capacete na cabeça e vai logo pedalar um pouco”. Pronto. Depois de uns 5 minutos de diálogo de convencimento interno, coloquei a calça de bundinha (ridícula aquela calça! Hahahaha), calcei o tênis, peguei o celular com os fones de ouvido, liguei a música, enfiei o capacete e saí pelo portão de bicicleta. Claro que olhei a hora! Sempre cronometro para ver a hora de terminar a tortura.

Saí morro acima e morro abaixo e aos poucos a sensação gostosa de estar fazendo o que eu deveria fazer me invadiu. Tentei me desprender do tempo que faltava para terminar a tortura e comecei a curtir o fato de estar cuidando da minha saúde, respirando a brisa gostosa que sopra em Brasília durante a época da seca e segui meu passeio.

Ao voltar para casa, pluguei o celular na JBL e pulei no banho. Banho longo. Na sequência, vagarosamente curti um ritual de esfoliações e cremes, sequei cuidadosamente o cabelo, passei perfume e o “pretinho” dos olhos e de repente me dei conta do quanto eu não tenho prestado atenção no que estou fazendo. Há quanto tempo eu não tomava banho e usava um tantão de cremes cheirosos – um para cada curva da cabeça aos pés, como se não houvesse amanhã e nem nada para fazer depois? Há quanto tempo eu não entrava no banho sem pensar na merda do racionamento de água brasiliense, depois de ter me livrado do racionamento de água paulistano? Sim! Sou dessas que fica com a consciência pesada por não tomar um banho de 2 minutos e por molhar minimamente as orquídeas nas árvores do meu jardim enquanto a companhia de água apita na minha orelha que a água do planeta vai acabar e vamos todos morrer secos.

Terminei o ritual. Longo. Cheiroso. Prazeroso. Senti fome! Fiz uma xícara de café, mexi os 2 ovos nossos de cada dia e sentei na bela varanda da minha casa com um livro na mão. Que delícia! Aos poucos, enquanto lia, minha mente desviou das páginas do livro para a sensação deliciosa que eu estava sentindo. Corri e peguei o computador para registrar a revelação repentina daquele momento:

“Fiquei em casa para encaixar a alma no corpo”!

Encaixar a alma no corpo para sentir o momento, seja ele qual for. Aquietar. Encaixar a alma no corpo para parar de ficar doente. Encaixar a alma no corpo para descansar. Encaixar a alma no corpo para curtir a vida.

A reflexão da manhã, não por acaso, vai ao encontro da minha necessidade dos últimos dias, de interromper o automático da vida para prestar atenção naquilo que está acontecendo comigo e ao meu redor. Digo isso porque entendo que a minha virtude tem feito uma sombra enorme na minha rotina. Explico: a disciplina, virtude que tenho de sobra, me leva a cumprir minhas obrigações e fazer o que precisa ser feito sem refletir muito sobre a raiz, o propósito ou a conveniência daquilo que faço. Assim, convivo com pessoas que não me trazem alegria, sobrecarrego meus dias com compromissos sociais que na verdade não me dão tanto prazer, aceito trabalhos diversos que me fazem viajar como um piloto, aceito tudo que me oferecem e por aí vai!!! Por que? Pra que? Como?

Na verdade, a origem da minha crise está um pouco (ou totalmente) relacionada à minha educação cristã quanto à virtude, ao perdão e à resiliência. À ordem de tentar amar o povo que me trai, tentar fazer as coisas que não quero, tentar perdoar aqueles que me enchem o saco com palavras ou atitudes ofensivas. É difícil demais ser como Cristo ordena que eu seja! Difícil dar a capa para o fdp que tenta arrancar a minha blusa o tempo todo. E mais difícil ainda é viver com um representante de Cristo me lembrando, diuturnamente, que devo ser como Cristo foi. E o pior: me lembrando por atitudes, e não por palavras. Aff… isso beira o impossível!

O que me resta fazer? Prestar atenção!!! Sair do automático para curtir meus amigos de verdade! Beber os vinhos que gosto! Conviver mais com meus pais, lindos, que amo tanto! Ir visitar mais meu irmão, um dos homens de Deus mais virtuosos que conheço! Ser mais amável com meu amor Luciano, que me enche o saco apenas de vez em quando (como agora, nesse minuto, balangando sobre eu estar terminando esse texto na mesa do almoço só porque eu quero), curtir mais os meus filhos criados, lindos e responsáveis, que são a maior alegria que tenho sobre a face dessa Terra estranha e louca!

Saia do automático e carpe diem, Simone!!!!

 

MEUS CABELOS BRANCOS

whatsapp-image-2016-11-13-at-14-35-54Tenho meus cabelos belamente brancos desde antes dos 40. Não sou modesta quanto aos meus cabelos! Eu os acho um charme e, quanto mais brancos se tornam, mais os acho lindos. Eu sei: a falta de modéstia é algo condenável. Mas sinto muito: eu amo meus cabelos brancos!

As pessoas me perguntam como meu cabeleireiro chegou na cor, qual o número da minha tinta, como eu faço para mantê-la, etc e tal. Minha resposta de sempre: “Meu cabeleireiro é meu amigo Fred Fick há 20 anos, esse cabelo dá um trabalho danado para manter, e eu não sei o número da tinta”. E o diálogo continua até eu convencer o interlocutor de que a coloração só é possível porque meu cabelo é verdadeiramente branco. Muito branco! E que a tinta é só para igualar um pretinho que insiste em não embranquecer. Parece um kipá judeu! Trem chato!!! Por muito tempo, andei com cartões de visita do Fred junto aos meus próprios cartões na bolsa!!!

Meus cabelos brancos são cheios de alma – me conectam ao meu pai, de quem sou uma cópia feminina. Me lembram do meu avô Enoch, quem eu sempre achava sentadinho no mesmo banco da igreja pela linda cabeleira branca! Ele sempre estava lá antes de nós!

Aahh! E meus cabelos brancos também me renderam um apelido: “Miranda”. A-D-O-R-0!

Também tenho rugas. Muitas! “Sua pele é muito envelhecida para a sua idade!”, diz a dermatologista cheia de soluções para mim! As rugas também são as mesmas do rosto do meu pai. E assim como meus cabelos brancos, estão aqui faz tempo! Uso mil cremes há mil anos, gasto a maior grana preta com eles, não saio sem protetor solar, não durmo de maquiagem, uso as melhores marcas de maquiagem do mercado, e blá blá blá e não adianta nada! As rugas não me abandonam por nada nesse mundo! De verdade? Não ligo pra elas. Nunca liguei! De vez em quando minha bela amiga médica Carol me convence a colocar um botox de leve! Hahaha! Bela Carol!!! No casamento da minha filha Luciana, me deu a aplicação de botox de presente, dizendo que “a mãe da noiva tinha que estar com a testa lisinha!” Obrigada, Carol!

Tanto os meus cabelos brancos quanto as minhas rugas incomodam mais às pessoas à minha volta do que a mim mesma! Volta e meia recebo uma indireta ou uma direta acerca de algo que devo fazer. Não faço nada! Desculpem, amigos!

Sempre lidei bem com o envelhecimento. Acredito que isso se explica pelo fato de que sempre curti e aproveitei muito a vida em cada uma das suas fases. E a gente fica velha e velho mesmo. Ponto.

Até que… os 40 e poucos anos chegaram. E chegaram rasgando. Ameaçando. Me ameaçando. Muito. Comecei a olhar demais para os corpos lindos das jovens, comparando-me com elas, comecei a reparar que algumas amigas mais velhas do que eu não tem nenhuma ruga e que ninguém deixa o cabelo ficar branco. Cabelo branco? Que horror! Não pode ter nem uma raizinha. E tem que ser escuro como o de uma menina nova. E de preferência comprido para manter a juventude. Percebi, repentinamente, que sou uma mulher totalmente fora de moda. Aliás, nunca sei o que está na moda! Compro roupas clássicas de excelente qualidade e elas duram anos!!! Todos que convivem comigo sabem que eu sou a mulher-da-roupa-repetida. Mas comecei a reparar nisso também: minhas amigas coloridas e sempre de roupas novas e atuais! E de repente, não mais que de repente, ao final deste cruel processo, enxerguei uma senhora enrugada de cabelos brancos, desatualizada, de roupa velha e feia em frente ao espelho.

Fase horrível. Triste. Cansativa. E inútil. Muito inútil. Jamais voltarei a ter a pele lisa, os cabelos longos viçosos de uma bela moça de 20 anos. Jamais voltarei a ter o belo corpo que enlouqueceu meu então namorado, meu marido há 25 anos! Nunca! Passou. Não tem jeito. Posso malhar 3 horas por dia, usar todos os cremes que meu dinheiro puder comprar ou usar técnicas de deixar a cara lisa e que dão um resultado que eu acho ridículo. Odeio aquelas caras femininas artificiais de produção em série, com as bochechas falsas e aquelas bocas de pato que me dão vontade de rir e me fazem pecar porque eu sempre solto um comentário bem humorado e bem maldoso. Deus que me perdoe antecipadamente.

Durante esta fase triste, me perdi e tive que me procurar. Não sabia para onde eu havia ido. Perdida fiquei por um bom tempo. Amarga, irritada e odiando o passar dos dias. Me lembro uma noite na casa dos meus queridos amigos Marcelo e Vivi. Os dois alegres, falando que a vida estava boa, e, entre uma taça de espumante e outra, contando como estava sendo gostoso amadurecer. Eu respondi, rebelde e inconformada, que estava achando uma merda. Excuse my French. Reclamei. Protestei. Xinguei e expliquei minha ira. Como resultado, devo ter ganho mais uma ruga de cada lado. Adiantou nada, pois os meus dias continuaram a contar normalmente.

Ontem Marcelo e Vivi vieram jantar aqui em casa depois de uma peça em um teatro que fica logo ali ao lado. Em meio a mais taças de espumante, assuntos gostosos e muitas risadas, Marcelo pergunta: “Si, e você? Está lidando melhor com o envelhecimento?” Levei um leve susto inicial, mas não precisei pensar nem 10 segundos para responder sinceramente: “Sim, amigo. Estou ótima!”.

Para completar, hoje meu Amor leu alguns textos em Eclesiastes para mim. Rimos muito juntos porque Salomão foi um cara muito sábio que teve a cara de pau de dizer na lata coisas do tipo: “curte a sua vida aí, aproveita bastante porque todo mundo vai morrer – o bom e o mau vão morrer”.  As palavras de Salomão, a ressaca das férias, as 2 últimas semanas inteiras e tranquilas em Brasília (coisa rara!) e a pergunta do meu amigo Marcelo me fizeram dar sequência à reflexão e chegar à feliz constatação: A FASE TERRÍVEL PASSOU!!!! Graças ao bom Deus passou! Coisa chata era ficar agarrada por um fio a uma juventude que já acabou. A fase horrível passou porque larguei mão da busca cansativa de uma Simone na outra, a qual simplesmente não existe. Eu não existo nas minhas amigas de pele linda. Eu não existo nos belos corpos jovens das meninas. Eu não existo nas lindas imagens das revistas. Eu não existo no meu passado jovem.

A fase passou porque me reencontrei.

Me reencontrei na tranquilidade da varanda da minha casinha com a vista mais linda que eu poderia querer.

Me reencontrei na plenitude e na paz da companhia maravilhosa do meu Amor, enquanto compartilhamos maravilhosos dias tranquilos e felizes.

Me reencontrei na lembrança e na prova viva de que Deus caminha todos os dias ao meu lado, cuidando com carinho de mim.

Me reencontrei feliz e realizada dentro dos vôos corridos de idas e voltas maravilhosas e cheias de energia de Brasília para São Paulo, entendendo que de fato tenho duas casas.

Me reencontrei no valor dos meus cabelos brancos e na segurança do meu olhar marcado por muitas rugas, os quais chancelam a experiência necessária para compartilhar minha vida e meus saberes com tantos líderes em empresas onde eu jamais previ que poderia estar!

Me reencontrei na companhia alegre e divertida das dezenas de amigos que me fazem companhia ao pôr do sol, enchendo a minha varanda de som, de amor, de alma!

Me reencontrei na beleza da juventude da Luciana e do Pedro Henrique, meus filhos lindos e muito amados!

Me reencontrei nas múltiplas idas à praia ao longo de 2016 para visitar os pais mais maravilhosos do mundo, meu irmão amado, minha cunhada Jaque querida e meus sobrinhos carinhosos Luisa e Bernardo!

Me reencontrei nos meus livros, no meu gosto pela cozinha, na arrumação da minha casa, na minha nova horta de manjericão a partir da mudinha da minha querida Anna, nas minhas orquídeas floridas nas árvores em frente à varanda com a vista do pôr do sol mais linda que eu jamais poderia querer!

Me reencontrei na felicidade de me permitir ser simplesmente quem eu sou e quero ser, sem a luta inglória de tentar ser o que jamais, aos 45 anos, eu conseguirei ser: jovem!

O tempo não rouba nossa essência, tudo isso faz parte de um ciclo. Permanecemos nós mesmos, só que mais velhos. Então, em vez de esconder suas marcas, comemore uma a uma. (Ana Holanda, Vida Simples, edição 177, 2016)

Simone Maia, em Brasília, 12 de novembro de 2016.

Meu Mundo

Mulher e praia

Hoje em dia entramos tão facilmente dentro do mundo do outro, que às vezes perdemos a referência acerca do nosso próprio!

Viagens, fotos, sorrisos, chegadas e partidas, festas, dramas, protestos, comemorações e reclamações, dizeres e reflexões variadas que nos permitem viajar pelo outro, pelo intangível, pelo inexistente com facilidade jamais experimentada.

De vez em quando tenho a sensação de que estou sendo levada aos poucos pela correnteza leve e despretensiosa da beira do mar, que me afasta da areia da terra firme em direção às águas profundas da comparação, da ambição, da imaginação e da solidão de águas profundas. Quando me percebo afastada demais, bato os braços de volta para a margem, como se acordada de um sonho. Estranha sensação!

Na vida virtual, qualquer realidade é passível de ser cuidadosamente construída! Qualquer realização pode tomar a dimensão do olhar do observador. A criação ganhou asas jamais vistas! Suposições, desilusões, reaproximações!

Há 3 semanas, algumas colegas da minha adolescência tiveram a ideia de reunir virtualmente nossa turma de colégio / segundo-grau / ensino médio. Pode chamar do que você quiser!!! Devem ter demorado 3 dias para achar e “re-unir”, mundo afora, umas 25 pessoas dispersas há quase 30 anos. Siiim, eu disse trinta longos anos de separação. Que coisa maravilhosa! Que milagre tecnológico! Que feito sensacional! Que delícia reencontrar os queridos de tantas risadas e aventuras! Que maravilha passar horas combinando histórias diversas para interpretar quem é quem! Quem é esse? Quem é aquela mesmo? Cadê o fulano? Quem é esse ao seu lado na foto? Lembra de mim? Hahahahahaha!!!! Passei horas conectando nomes a apelidos e rostos, associando cabeleiras e carecas. Me assustando com os cabelos brancos – principalmente com os meus!

Euforia inicial transformada em “Bom dias” e mensagens carinhosas me fazem pensar que aquelas pessoas não existem mais! Somos outros. Transformados. Renovados. Mas, por dias mergulhamos em uma realidade virtual poderosa, capaz de nos transportar da segurança e estabilidade da areia para a excitação de uma nova e desconhecida jornada em alto mar! Capacidade poderosa! Conectar, desconectar, reconectar em segundos.

Invariavelmente, veio a vontade de reencontrar, rever, abraçar e gargalhar. Gargalhar de um tempo recriado virtualmente, em nossa memória e imaginação. Básicos, previsíveis e humanos que somos!

Será a navegação o ópio do nosso tempo?  O quão distante seguimos mar adentro, deliciosamente embalados pelas marés da nossa imaginação?

Sigo refletindo acerca da realidade transformada pela ilusão de um mundo imaterial, feito de ondas que me balançam e me transportam, um tanto quanto tonta, do meu mundo próprio para tantos outros quantos for a minha vontade de viajar!

Simone Maia, viajando, em 26 de julho de 2016.

Ser mãe ou ser profissional? A preciosa busca do equilíbrio na vida feminina

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Hoje minha agenda corrida foi deliciosamente interrompida para um almoço com uma mulher maravilhosa de quem tive o privilégio de me aproximar nos últimos meses, como fruto de um daqueles movimentos imprevisíveis que costumo nominar de presentes divinos! O motivo da preciosa pausa foi uma conversa sobre o formato e o conteúdo de um Painel para o qual ela me convidou – um Painel para mulheres cujo tema será “Novos Começos”.

A conversa seguia animada do jeito que eu gosto: um assunto emendando no outro de forma densa e profunda e, ao mesmo tempo, leve e agradável, até que começamos a falar do equilíbrio entre a vida profissional feminina e a maternidade. Buum!!! Assunto matador para duas mulheres independentes e amantes tanto do trabalho quanto dos seus filhos crescidos e já “criados”.

Amei de paixão uma frase que minha nova amiga repetiu algumas vezes, por já ter sido tema de um dos painéis que organizou. Vai mais ou menos assim: “quem fica se frustra e quem vai se culpa”. Simples assim.

Nós mulheres vivemos o dilema da cobrança – temos que ser as melhores esposas, as melhores mães, as melhores profissionais. Um polvo de mil braços capaz de dar conta de tudo ao mesmo tempo sempre. Cansa só de pensar! Temos uma neura instalada dessa coisa maluca de sermos “melhores”.

Melhores do que quem?

Melhores pra quê?

Será que não podemos nos permitir ser simplesmente mulher? Abrimos uma competição interminável conosco mesmas, com as demais mulheres e com os homens. Aaaah… os homens!!! Quem disse que temos que ser como eles, hein? OK. Muito polêmico. Vamos deixar os homens para outro dia!

Olhando para a realidade das mulheres mães profissionais da classe média brasileira (e aqui é necessário fazer este recorte), penso que a questão não mais reside no dilema entre ir ou ficar, entre trabalhar ou cuidar dos filhos, mas sim em como conciliar a vida profissional com a criação dos filhos, sendo feliz e realizada em ambas as empreitadas. Aliás, quem disse que precisa ser um OU outro?

Nada me leva a crer que nós mulheres precisamos fazer uma escolha definitiva entre ser uma profissional bem-sucedida ou ser uma excelente mãe. É a minha própria história que me convence. Fui mãe aos 21 anos, quando ainda era universitária. Não engravidei por susto ou contra a minha vontade. Escolhi assim! No mesmo ano em que Luciana nasceu abri uma pequena empresa e me formei. Dois anos depois encomendamos o Pedro Henrique! Mudamos para a casa que construímos e seguimos uma vida feliz. Trabalhei até o dia anterior ao nascimento de cada um dos meus filhos. Voltei a fazer de tudo sei lá quantos dias depois. Foi breve!! E caminhei assim, entre mamadeiras, passeios maravilhosos, choros, muitas reuniões, muitas viagens e muitas alegrias ao longo da minha juventude muito corrida e muito feliz!

Não tenho qualquer pretensão de me apresentar como exemplo ou contar minha história como sendo aquela que representa a escolha correta ou a melhor escolha. Tenho sim a genuína intenção de afirmar com toda certeza que é possível criar maneiras e alternativas para fazer tudo aquilo que sonhamos, sem necessariamente termos que optar entre ser mãe ou ser profissional, sendo essa uma escolha que considero muito dura para os dias de hoje. Afinal de contas, estudamos muito, somos ensinadas a ser independentes e conquistadoras de boas posições no mercado de trabalho. No meu caso, também fui ensinada a cozinhar, a cuidar de crianças, a lavar as roupas, limpar a casa, tanto quanto meu irmão! Sou uma privilegiada e aqui repito o meu “Muito obrigada” aos meus maravilhosos pais, que são para mim exemplo de equilíbrio entre a vida profissional e os afazeres da nossa família.

O que faz você feliz? O que você quer? Qual é o seu sonho?

  • Ter filhos e deixar de trabalhar? Faça isso!
  • Ter filhos e continuar trabalhando? Faça isso!
  • Trabalhar e nunca ter filhos? Faça assim!

Apenas escolha, tome sua decisão e seja feliz! Sem culpas e com plena consciência de que sempre temos uma escolha. Não deixe que a sociedade ou seus amigos palpiteiros de plantão decidam o que faz você feliz. E livre-se dos clichês! Quem disse que filho de boa profissional é menino mal-educado? Dizem que sou uma boa profissional e dizem também que meus filhos são bem-educados!!! 🙂

E ao fazer sua escolha, como Consultora de RH e Mãe que sou, peço licença para recomendar que você não deixe de considerar que seus filhos estarão por perto por aproximadamente 20 curtos anos antes de lhe deixarem totalmente só, face a face consigo mesma. Suas noites agitadas divididas entre papinhas, banhos, sorrisos gostosos, brincadeiras e muito barulho poderão se transformar em jantares silenciosos, muitas oportunidades de leitura solitária e inúmeras horas para você passar a sós com você mesma. Que mulher você quer encontrar quando eles, preciosos e amados filhos, partirem felizes para viverem suas próprias vidas independentes de você? Que mulher é esta que estará lá esperando pela mãe dos filhos crescidos?

Eu ainda estou tentando compreender a mulher que existe além dos meus filhos crescidos. Aliás, está tão complicado de entender que eu contratei alguém para me ajudar!

Enquanto a compreensão não vem, preencho meu precioso tempo com longas, intermináveis e deliciosas jornadas de intenso trabalho!

Desejo uma excelente e feliz escolha pra você!

Com amor,

Simone Maia, 45, feliz, consultora de grandes empresas e mãe de Luciana, 23 e Pedro Henrique, 20.

Nossos Filhos, Nosso Projeto.

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Meus filhos queridos, Nana e Pedrinho,

De repente senti vontade de escrever para vocês para declarar que vocês 2 são meu mais importante Projeto!

Um projeto tem um objetivo ou alguns objetivos muito importantes a serem alcançados. Meu objetivo nos últimos anos tem sido viabilizar a felicidade e o sucesso de vocês 2.

Neste projeto tenho um sócio maravilhoso: seu Papi! Ele é o sócio fundador do Projeto! Juntos, temos traçado estratégias e feito múltiplos investimentos para que as metas do nosso Projeto sejam alcançadas. Temos metas relevantes para vocês: dentre elas, a mais importante é que sejam servos tementes a Deus. Pessoas do bem! Cristãos de verdade, com coração puro e intenção verdadeira de viver nesse mundo louco como Jesus viveu. 

Outras metas: que sejam felizes. Que tenham bons casamentos. Que sejam realizados profissionalmente. Que o trabalho lhes dê o sustento e o conforto necessário para viverem bem.

Tenho refletido muito nos motivos que me trouxeram para São Paulo e carregaram a família junto. E na minha reflexão tenho descoberto que minhas motivações, ou seja, meus motivos, estão, em sua grande maioria, relacionados ao nosso Projeto – meu e do Papi. Os que me observam por fora, da arquibancada, percebem uma mulher obstinada, determinada, que almeja crescimento na carreira e sucesso financeiro. Isso é verdade. Os que jogam em campo comigo sabem que mais no fundo existem um desejo que se traduz em passagens aéreas para OKC, festas de casamento, mensalidades de OCU, títulos de Clube Hípico, cavalos, competições de hipismo, viagens para a Bélgica, vestidos, culotes, livros, aulas de canto e por aí vai. Meu foco tem estado no grande Projeto da minha vida!

Tenho ouvido muito sobre disciplina nos últimos tempos. Me impressiona a quantidade de pessoas relevantes, personalidades, grandes líderes e pessoas de sucesso que apontam a disciplina como a chave para o sucesso de qualquer projeto. Quero que tenham disciplina. Deus sabe o quanto sempre desejei que entendam o resultado proveniente da disciplina.

Desde o início do Projeto (desde que eram bem pequenos!!!), disciplina é algo que sempre reforcei para vocês de diversas formas. Querem ver??
“Termine tudo o que você começa”.
“Faça o dever antes de relaxar”.
“Escove os dentes após todas as refeições”.
“Insista até aprender esse negócio”.
“Boa noite. Já orou pra dormir?”
“Não, você não pode faltar a escola.”
“Persiga seus sonhos.”
“Não desista.”
Etc. etc. etc.

Ambos escolheram caminhos difíceis, desafiadores: uma artista e um atleta! Lindos! Corajosos! Autênticos! Parabéns por terem a coragem de escolher fazer o que gostam, independente do mundo gritar que este caminho é o mais difícil. Parabéns! Vocês têm Pai e Mãe determinados, corajosos, com lições importantes de superação. Sigam em frente! Vocês têm a nossa bênção e sempre poderão contar com o nosso apoio. Mas saibam que quanto mais difícil a trilha, maior a exigência pela disciplina. Honrem as escolhas que estão fazendo. Persistam! Sejam criativos, resilientes, fortes! Ao mesmo tempo, sejam sábios. Não apenas inteligentes, mas sábios. Lembrem-se: a sabedoria é dom de Deus e não de homens. Não encontrarão a sabedoria neste plano natural, mas nos momentos que passarem ao lado do Senhor.

Detalhe: é sempre aceitável mudar de rota. Escolhas novas são SEMPRE uma opção!

Daqui para frente, vamos envelhecer rapidamente, eu e o Papi. Em pouco tempo vocês se tornarão mais fortes que nós, os donos do Projeto. Precisarão, então, de disciplina própria. A hora da autonomia está ficando cada vez mais próxima! Já já vamos nos cansar e vamos querer passear, descansar, sumir, curtir. E esse será o tempo de exercitar a auto-disciplina. Preparem-se!

Para terminar: não é segredo que gosto muito de trabalhar! Gosto do mundo corporativo. Esta é a minha linguagem! Mas em meio à minha paixão pelo trabalho, descobri que na verdade Deus é caprichoso comigo, porque Ele permite que eu seja feliz enquanto trabalho em prol do nosso Projeto!

Sou feliz por ser sócia com o Papi de Projetos Divinos absolutamente maravilhosos na Terra: um se chama Luciana e outro se chama Pedro Henrique!

Amo vocês. Simples assim.

Mammy

São Paulo, 21 de fevereiro de 2013.

A Barriga dos Sonhos

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Avião é um lugar legal porque, na impossibilidade de navegar, sou obrigada a arranjar outra coisa pra fazer enquanto a única opção é aquietar meu ser agitado e voar!

Uma coisa divertida é olhar o que o pessoal das poltronas à minha volta está fazendo! Ignoro os que dormem (e até roncam!!), coloco os fones para não ouvir os bebês chorando de tédio, mas curto observar o que as pessoas ao meu redor estão lendo.

No voo de hoje, à minha direita, ao longe, a manchete enorme “A barriga dos sonhos”! Verão chegando, o desespero para emagrecer e fazer bonito de biquíni na praia e nas piscinas do nosso país ensolarado! Cá entre nós, sem segredo: quem nunca foi atraída ou até mesmo atraído por uma manchete dessas? Eu já!! Ainda sou!!!! Rsrsrsrsr

Mas, aos 44, a barriga dos meus sonhos já ficou lá pelos 36 (até que durou muito!!!) e o que eu sonho agora é ver manchetes sobre “A cabeça dos sonhos” ou “A mente dos sonhos” , “Os filhos dos sonhos”, “Os governantes dos sonhos” ou ainda “A alma dos sonhos”! Eu queria ler mais sobre o assunto! Adoraria ter acesso a revistas especializadas que nos dessem algumas daquelas listinhas que funcionassem tão bem quanto uma série de exercícios abdominais bem montada para deixar a “barriga dos sonhos” sarada e linda!

Mas infelizmente ainda não descobri uma lista pronta para deixar minha alma linda. Para ter a mente e a alma dos sonhos tenho precisado viver mesmo. Experimentar. Errar. Acertar. Aprender. Arriscar o voto. Reaprender. Criar filho com virtudes lindas e defeitos tão horríveis quanto os meus próprios. Não encontrei lista pronta.

Contudo, se alguém tiver acesso a uma listinha milagrosa, por favor compartilhe comigo. Pode ser um link no Facebook, uma fotografia compartilhada no Instagram, um comentário aqui no BrainHeart ou até codificada no meu Twitter! Se for ‘profí’, compartilha na minha página do LinkedIn; rapidinho as centenas de amigos e colegas de RH darão um jeito de montar vários treinamentos sobre o tema!

Quem me dera ter uma fórmula!!! Pra mim e meus companheiros de vôo.

Mas o desafio é fazer sem lista. Malhar a cabeça e lapidar a alma dá muito mais trabalho do que malhar a pança – nome carinhoso que dou à minha ex-barriga bonita! Meus amigos malhadores de pança por favor não se ofendam! Não tenho nada contra os lindos gominhos que nascem do cuidado diário com o transverso do abdômen! Eu também tento! Certo que não consigo, mas vou lá na ATP entre uma correria e outra para tentar não deixar a coisa descambar de vez. Mas confesso: preferiria ver movimento inverso entre as bibliotecas e as academias.

Já pensou se cada academia fosse uma biblioteca?  Quão malhadas seriam nossos cérebros? Com quantos poemas e virtudes não alimentaríamos nossas almas?

Mas essa é só uma breve reflexão mesmo! Um breve sonho nas alturas. O vôo é curto. Muito mais curto do que os belos dias ensolarados do verão. Aqueles que pedem uma barriga dos sonhos! Já já vou ter que desligar para aterrissar. Vou aproveitar e aterrissar minha alma dos ares junto com a aeronave!

Mudança

Montanha russa

Aaaaaaaiiiiii!!!! Lá vou eu de novo dentro do carrinho da montanha-russa da mudança!

Já andou em uma montanha-russa bem grandona? Daquela que faz o coração da gente acelerar e bater bem forte, embalado por aquela subida lenta e interminável que antecede uma queda abrupta e veloz rumo a um buraco qualquer?

Pois então!  Esse é exatamente o sentimento que tenho quando percebo que uma grande mudança vai acontecer na minha vida. É como se estivesse na primeira fila do carrinho da montanha russa gigante, com as mãos suadas agarradas na barra, o coração na boca, o grito estridente pronto para sair, a ansiedade pela sensação maravilhosa do novo e o prazer antecipado da retomada após a queda!

Do outro lado do coração, a irritação, a angústia, o medo do desconhecido e a saudade antecipada daquilo que já sei que terei que deixar pra trás… É assim que eu (e aposto que dezenas de pessoas do meu círculo de relacionamento) me sinto neste exato momento! A expectativa de que algo vai mudar mexendo com cada centímetro quadrado do meu ser.

– Por que isso está acontecendo?

– Pra que?

– Como será?

– O que será que vou perder ao longo do caminho? Meu chapéu? Minhas sandálias? Segura os óóóóculos!!!!!

Farejando nova mudança e refletindo muito sobre ela nos últimos dias, sinto e arrisco concluir que a vida da gente é a resultante de uma sequência de mudanças. Tudo muda o tempo todo, por vontade de cada um de nós ou mesmo contra todo e qualquer plano idealizado. Por isso, penso que não adianta resistir! Quem resiste fica parado, fazendo força pra trás, como parte do time do contra (-fluxo), enquanto tanta coisa passa alegremente no carrinho ao lado rumo a novas possibilidades, oportunidades e gritos de prazer e alegria. Assim como na montanha russa, a vida não nos dá a opção de sair do carrinho depois que a subida já começou!

Mas falar ou escrever contra a resistência à mudança a partir de um raciocínio estruturado é fácil! Difícil é permanecer lúcida, firme e otimista quando bate o desconforto de mudar! Já prestou atenção no verbo que usamos para relatar um processo de mudança? Geralmente iniciamos a fala dizendo que “fulano ou beltrano ou o processo ou a igreja ou a empresa ou qualquer coisa SOFREU uma mudança”!!! Reparem! Mudança está, socialmente, associada ao sofrimento. Essa expressão me intriga sobremaneira!

E por que resistimos? Creio que seja porque gostamos do conforto do conhecido! Porque sair do lugar consome a energia que às vezes não temos. Porque geralmente tememos aquilo que ainda não sabemos como vai ser.

Minha mente tem mandado mensagens constantes ao meu coração para fazê-lo crer de verdade que a melhor opção quando já estamos no carrinho da montanha russa da vida é curtir a vista!  Vai subir! Vai cair! Sinta o vento forte no rosto! Vai subir de novo! Alguns vão gritar enquanto outros gargalham compulsivamente! Escute! Os chapéus vão voar e alguns chinelos vão se perder ao longo do caminho! Mas nada se compara à sensação maravilhosa causada pelo rush de adrenalina que correu pelo corpo! Que coisa boa é curtir a saída do outro lado depois que o carrinho para, depois que os gritos de susto cessam e a ansiedade é substituída pelos sorrisos leves que surgem nos lábios enquanto os ouvidos escutam as experiências do seu companheiro de subidas e descidas rápidas! Como é bom!

E assim é viver! Viver é mudar. Viver é subir e descer. Cair. E subir de novo. Rápida e intensamente. Com medo. Com arrependimento por ter partido.  Com gritos e gargalhadas. E, principalmente, com sorrisos prazerosos que surgem ao sentirmos o frescor do novo!

E preste atenção, Simone: concentre-se em cada mudança e curta o caminho da vida para depois ter como sorrir ao escutar suas próprias lembranças!

 

Rio Quente, GO, 08 de agosto de 2015.

 

Minha Cozinha, Minha Vida

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Escrevi este texto há quase 4 anos. Na ocasião, meu querido Luciano pediu para publicá-lo em seu blog Café com Deus. Ontem lembrei dele e resolvi publicá-lo novamente aqui no BrainHeart.

Mesmo um pouquinho antigo, ainda faz todo o sentido pra mim!

Aí está: Minha Cozinha, Minha Vida!!!

Quem me conhece sabe que estou vivendo nova fase de vida. Hoje está ótimo para ilustrar: tarde de 7 de setembro, feriado, sozinha em casa. A filha estudando lááááááá longe, o filho passando o dia estudando para uma prova na casa de um amigo onde dormiu e o marido saiu para estudar também. Nada de amigos por hoje. Ou seja, sobrei. Mas pelo menos desta vez eu estou feliz.

Bem, como o tempo está me sobrando, eu descobri que com mais tempo eu consigo até pensar melhor.

Aí, estava eu lavando a louça do almoço que eu preparei para mim e para o Lu em menos de 10 minutos (é, eu sou ninja na cozinha!!!) e me veio à mente um comparativo interessante de como minha relação com a gastronomia, minha geladeira, minha cozinha reflete minha relação com a vida.

Funciona mais ou menos assim: quando estou em casa e tenho que preparar alguma coisa para comer, eu abro a geladeira, depois o armário de comida, analiso o que tenho disponível em ambos e a partir daí eu invento o que eu vou fazer. Raramente percorro o caminho inverso de pensar em algo para comer para depois sair com uma lista a fim de comprar os ingredientes – geralmente só faço isso para uma ocasião específica ou mediante pedidos especiais. No dia a dia, inclusive em situações especiais do dia a dia, primeiro eu vejo o que eu tenho e depois eu penso no que posso criar de bem gostoso com o que eu tenho à disposição na minha cozinha.

Na vida, sou mais ou menos assim também, como sou com a minha cozinha. Procuro fazer coisas gostosas a partir do que tenho disponível. Raramente fico idealizando fazer algo cujos ingredientes não tenho à minha disposição.

O primeiro exemplo que me foi marcante é data do ano em que fui morar nos Estados Unidos como intercambista. Eu saí de uma cidade no interior do estado do Rio de Janeiro, onde eu era uma mocinha completamente independente com uma vida social bem agitada, e fui morar no interior da Flórida, onde não havia sequer meio de transporte que pudesse me levar e trazer para qualquer lugar. Em pleno tédio, comecei a transformar as coisas rotineiras em diversão. E tudo passou a ser interessante: ir ao supermercado (antes eu odiava ir ao supermercado), andar de bicicleta, visitar a host mom no trabalho (e ela trabalhava no hospital, véi!!!), montar quebra-cabeças, bordar (bordar???????????), malhar (malhar????????? Como é que isto pôde um dia ser divertido?)… Enfim, consegui viver feliz com o que estava ao meu alcance. E fui de fato muito feliz durante o meu ano de intercâmbio.

Ao longo dos anos, tenho passado por altos e baixos. Altos bem altos e baixos bem baixos. Tirar proveito dos itens à minha disposição nas alturas foi bem fácil. Mas enxergar a felicidade disponível no baixo foi um desafio incrível. Nos períodos de carestia na vida adulta, descobri que o dom de criar a partir do que há disponível é na verdade uma característica infantil que se perde pouco a pouco na medida em que o tempo passa para nós.

Mas para a minha felicidade, ainda hoje consigo, na maioria das vezes, viver com o que tenho. Não seria certo eu dizer que simplesmente me contento com o que tenho. Isso tem parentesco com a mediocridade e eu tenho um problema com ela. O que eu consigo, na maioria das vezes, é encontrar felicidade no momento presente, mesmo quando estou a caminho de algo a ser conquistado. Uma vez me disseram que eu sou engraçada porque o melhor é sempre aquilo que eu tenho! Hahahaah! Mas é óbvio! Se isso é o que eu tenho, isso é o melhor. Sobrevivência pura. E para sobreviver, cada um encontra seus meios.

Na verdade, me considero uma pessoa muito sonhadora. Mas sou uma sonhadora realista (isso existe?) e sempre estabeleço novas metas a partir dos estágios que alcanço. Sempre fui assim. Sonho e persigo. Alcanço e planejo de novo. Mas, na maioria das vezes, consigo curtir o caminhar, a construção, a conquista. Quando falho em reconhecer que o que tenho hoje deve me bastar, luto com a orientação de Jesus naquele verso bíblico que nos orienta assim: não se preocupem com suas próprias vidas, quanto ao que comer ou beber; nem com seus próprios corpos, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante do que a comida, e o corpo mais importante do que a roupa?” (Mateus 6.25). Haja fé!

Não quero aqui dizer que eu sou muito legal ou especial porque na maior parte do tempo eu tenho esta habilidade. Quero apenas compartilhar algo que considero ser uma estratégia para curtir a vida, uma espécie de pílula do contentamento. Por que eu vou ficar planejando comer filé com fritas quando só tem alface e peito de frango na minha geladeira? Vou procurar uma receita de peito de frango e curtir com alface, ué!

Ah! Acabei de me lembrar como aprendi a fazer macarrão ao alho e óleo: estudante universitária, república, 10:30 da noite, aproximadamente, chego da biblioteca morrendo de fome e com zero de dinheiro. Abro a geladeira, encontro alho. Abro o armário encontro um pacote de macarrão. Mais NADA!!! Penso: já ouvi falar num tal de “macarrão ao alho e óleo”. Como óleo sempre tem mesmo, o resultado foi ótimo! Voilà!!!

E assim tem sido: com filhos pequenos, abracinhos que me fazem sorrir. Com filhos grandes, colo livre para os livros. Com o marido, beijos. Sem beijos, com expectativa. Com sol, churrasco no quintal. Choveu? Barulhinho de água na janela da sala de TV! Com dinheiro, restaurante. Sem dinheiro, o aconchego da minha cozinha. Uhmm! Vamos ver o que temos aqui na geladeira…

Simone Maia, Brasília, 07 de setembro de 2011.

 

RH: meu trabalho, minha missão, minha paixão.

 

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Não escolhi esta profissão. Escolhi ser e fazer outra coisa. Mas o RH brotou, aconteceu, fluiu e evoluiu enquanto eu estava fazendo aquela outra coisa que eu escolhi fazer.

Ao longo dos anos, aquilo que era uma habilidade natural se transformou em projeto, em prazer, em ganha-pão em missão e, finalmente, em paixão.

Comecei a trabalhar bem novinha, aos dezesseis anos, em uma pequena cidade no interior do Rio de Janeiro. Indicada pela escola de inglês onde estudava, dei aulas para as crianças de 1ª a 4ª séries em uma escola local. Naquele tempo, rodava as atividades no mimeógrafo!!! Rsrsrsrs A Geração Y nem sabe que bicho é esse!

Um semestre depois, parti para um ano de intercâmbio cultural como bolsista do Rotary Club da pequena cidade onde morava e, no retorno, estava decidida a prolongar a belíssima experiência internacional pelo resto da minha vida! Feito! Prestei vestibular para Relações Internacionais em Brasília, passei e, aos 18, me mandei sozinha para a capital federal para estudar!

No último semestre do meu curso universitário, eu, apressada, já havia me casado, tido minha primeira filha Luciana e aberto uma empresa de intercâmbio cultural com o apoio do meu marido, meu grande companheiro para todo o tipo de loucura!

No início da minha carreira como internacionalista, o que eu fazia mesmo era me virar com todas as exigências, confusões e dificuldades de uma pequenina empresa brasileira de educação internacional. Foram alguns carnavais até que a coisa se tornasse internacional de verdade! E não posso reclamar! Fazendo o que gostava, rodei o mundo e assim comecei a me situar nessa Terra de meu Deus!

Com o tempo, a pequena empresa que eu dirigia com o meu marido, que havia deixado de ser apenas meu sócio capitalista para seu meu companheiro 24 x 7, se tornou destaque em vendas, em qualidade de atendimento, em eficiência e em crescimento dentre todas as unidades da rede paulistana à qual pertencíamos. Créditos para as estratégias de marketing e de gestão de pessoas totalmente intuitivas que, àquele tempo, faziam parte do nosso dia a dia. O marketing era obra do marido-sócio-marido e o RH o meu próprio laboratório.

Aos poucos, minha natureza professorinha organizada se transformou em uma paixão desenfreada por compartilhar com as pessoas aquilo que eu mesma ia aprendendo sobre o business e tudo que o rondava. Tinha um prazer incrível em dividir o que eu estava descobrindo! De professorinha passei então, a líder de desenvolvimento dos nossos funcionários de Brasília e daqueles dos nossos sócios pelo Brasil afora, os quais se apertavam em uma salinha para me ouvirem ensinar sobre tudo o que eu sabia e que me fazia vender tanto e tão bem, segundo o que os números indicavam.

Entre conferências bem organizadas, treinamentos diversos e um Centro de Serviço Compartilhado inaugurado, fui me apaixonando pela estratégia que envolve gente, atende gente, atrai gente, ensina gente, recompensa gente. Amo gente!!! Assim, a partir da prática, fui estudar e me especializar na ciência que eu já praticava sem saber e sem escolher!

Ironicamente, uma falência 10 anos depois me empurrou para a única outra coisa que eu sabia fazer: cuidar de gente! E foi assim que eu descobri que a paixão e a crença no potencial das pessoas ultrapassavam os limites da minha propriedade e começava a irradiar para qualquer outro lugar que tivesse um ser humano para contratar, um grupo para treinar, uma avaliação para realizar, uma estratégia para pensar! Apaixonadamente, comecei a dividir com outros empresários minhas crenças acerca do valor das pessoas e sua importância para os resultados de suas empresas. Eu estava empolgada, entusiasmada com o que estava sendo dito nos livros e palestras acerca da Era do Conhecimento. O conceito estava em alta e eu tinha pressa em fazê-la acontecer em toda a parte! Louca.

Hoje, é essa a loucura que ainda me impulsiona a descobrir o lugar onde minha paixão seja bem-vinda! Onde a criatividade e as ideias sejam mais valorizadas do que a obediência cega ao status quo organizacional! Onde as pessoas sejam livres para pensar e convidadas a compartilhar aquilo em que acreditam.

Mais simples do que isso, minha louca paixão quer ajudar a construir espaço onde as pessoas sejam verdadeiramente valorizadas por aquilo que têm capacidade de criar e produzir. Lugar onde este discurso batido de valorização das pessoas seja transformado em valor verdadeiro. Lugar onde elas, as pessoas, sejam mais importantes do que o dinheiro na teoria E na prática. Tão simples de entender, tão fácil repetir e tão difícil de praticar…

Procuro este lugar. Se você encontrar, por favor compartilhe para que eu possa novamente me apaixonar!

Simone Maia

São Paulo, agosto 2014.

 

Bye Bye, Kids!!! Hello, my Love!!!

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Sempre me considerei uma pessoa durona e bastante forte, resistente. Apesar de amorosa, sempre fui pouco emotiva. Chorar com filmes? Chorar de tristeza? Sempre estive mais pra chorar de raiva!!! Com uma exceção…

…meus dois filhos!

Apresentação da escola, teatro na igreja, cantoria no Dia das Mães, nota alta, nota baixa, quadrilha de Festa Junina, bilhetinhos, pinturas ou qualquer tipo de manifestação da Luciana ou do Pedro Henrique sempre foram capazes de fazer transbordarem meus olhos!

Tem uma música da Paula Toller que é infalível na arte de me fazer chorar! Fala de filho, claro! Não me recordo de uma única vez que tenha ouvido a música e não tenha chorado. Choro TODAS as vezes que escuto! Chama-se Barcelona 16 e foi composta por Paula para o seu filho Gabriel. Diz assim:

Eu não sabia que existia / Esse outro parto de partir / E me deixar na beira do cais / Filho sempre meu não mais

Eu não sabia que teria / Que ter você pela segunda vez / Dar a luz a arte e ao mar / E a tudo mais que você sonhar

Solta da minha mão / Leva o seu violão / Dentro do mochilão / Leva também o meu coração

Eu não sabia que teria / Que ter você pela segunda vez / Dar ao mundo e a tudo que há / E a tudo mais que você criar

Solta da minha mão / Leva o seu violão / Dentro do mochilão / Leva também o meu coração

E meus filhos se foram!!! Soltaram da minha mão e foram para o mundo levando meu coração.

Educamos nossos filhos de maneira bastante independente para os padrões da nossa cidade e da nossa classe social. Por vezes fomos criticados, mas seguimos firmes na crença de que são um empréstimo de Deus para nós, e não nossa propriedade! São flechas para serem lançadas, como afirma Salomão no Salmo 127: “Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá. Como flechas nas mãos do guerreiro são os filhos nascidos na juventude. Como é feliz o homem cuja aljava está cheia deles!”

Mesmo tendo me preparado para um dia arremessar minhas flechas, desde que lançamos a segunda delas ainda não consegui achar novo prumo. Agora nem posso arriscar escutar Barcelona 16!!! (Hahahahaha) A partida da segunda flecha acirrou a saudade da primeira e há meses vivo no limbo entre a tristeza de não os ter por perto e a alegria de voltar aos tempos de lua de mel com o Amor da minha vida!

Agradeço a Deus por ter, ao longo dos últimos 22 anos, nutrido nosso amor de casal! Mesmo em meio à correria das fraldas, ao desespero dos choros de dor, às deliciosas gargalhadas infantis, aos passeios exclusivamente para pequeninos, às cansativas “caronas” adolescentes e após os incontáveis Reais gastos, Deus permitiu que nosso amor continuasse crescendo, até o ponto em que percebi que meu coração continuava acelerando todas as semanas ao busca-lo no aeroporto durante os quase 2 anos que moramos em cidades separadas!

Não sei o que seria de mim agora, se não houvesse alegria no reencontro diário, no compartilhar da mesa posta apenas para nós dois, no silêncio do carro, nos inúmeros brindes ao pôr do sol, no aconchego de uma nova casinha pequena! Ai de mim se todo o meu amor tivesse ido junto com minhas flechas…

Oscilando entre a nostalgia e a euforia, ainda não sei o que vou fazer com o tempo que sobra, com os sábados silenciosos e a quantidade de ideias que não vêm acompanhadas de qualquer vontade de me mexer! Assim, vou ficando por aqui, em estado de simples contemplação! Vou esperando o coração de mãe assentar. E quem sabe já será tempo de o netinho chegar??!!!

Brasília, 06 de junho de 2015.