Gosto de gente de Graça!

Eu queria viver rodeada de gente autêntica. Gente inteligente. Gente sábia. Gente de verdade.

Queria eu conviver com as pessoas como elas são.

Eu queria conviver com as pessoas sem capa.

Capa de espiritualidade.

Capa de religiosidade.

Hipócritas!

Eu queria viver rodeada de gente que sente. Que sente e conta pra gente.

Queria eu viver com a verdade que vem da alma.

Queria eu conviver com a verdade com ou sem trauma.

Mundo chato. Mundo boring. Mundo fake.

Gente chata. Gente boring. Gente fake.

Gosto de gente de verdade.

Gosto de gente intensa.

Gosto de gente com gosto da verdade.

Gosto de gente que erra. Gosto de gente que acerta.

Gosto de gente.

Cansada.

Cansada de gente perfeita.

Vamos fingir!

Cansada dos idiotas

Muito cansada de idiotas.

Quero viver rodeada de gente! Gente de verdade.

Gente de verdade me achega ao meu Deus.

Gente de verdade me faz ver que sou nada e o Pai é tudo em nós.

Gente de verdade!

Gente de verdade tem sabor!

Gente de verdade tem graça!

Gente de verdade carece de Graça.

Gosto de gente!

Gosto da Graça!

Gosto de gente de graça!

Simone Maia na quarentena por COVID-19

75 days and counting…

“Eu me esforço para viver cada dia como se fosse uma vida completa”. Seneca

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Já teve a sensação de familiaridade quando algo que você faz ou conhece há muito tempo vira moda ou tende a virar hábito de muitos? Acho que a maioria de nós passa por isso de vez em quando.

Eu estou passando por isso de maneira muito intensa em relação a alguns aspectos durante minha quarentena. Home office, baixo consumo, carpe diem e valorização da família são hábitos antigos que agora tornam-se mais comuns a mais amigos, colegas e até desconhecidos que postam suas descobertas e reflexões nas redes sociais.

Não quero aqui parecer arrogante sabichona; minha intenção verdadeira é apenas dividir um pouco do que tenho vivido nos últimos anos e algumas lições que aprendo e que talvez possam ser úteis para outras pessoas que amo ou para aquelas que nem conheço!

Vamos por partes!

 Home Office

Morei um pouco mais de dois anos em São Paulo, entre 2012 e 2014. Sou consultora de empresas e quando voltei para Brasília, passei a trabalhar em casa quando não estava em clientes em Brasília ou em São Paulo, onde ainda tenho forte vínculo profissional. Logo, trabalho em home office há cinco anos e considero essa uma estradinha boa! Primeira informação importante para entender o meu ponto de vista: adoro trabalhar na minha casa! Aqui economizo o tempo do deslocamento, economizo muito dinheiro porque não tenho o custo fixo de escritório e tudo o que decorre da ação de “alugar um espaço”, me alimento bem e nos horários certos porque minha cozinha saudável está logo ali e, o mais importante: me concentro facilmente porque não tenho interferência do ambiente corporativo cheio de gente que me dispersa porque eu adoro uma interação!

Para que minha experiência seja tão boa, há uma série de pré-condições que considero essenciais para que assim seja:

  • Tenho a alegria de morar em uma casinha em um local maravilhoso. Escolho entre a biblioteca dentro de casa ou a varanda no jardim com vista ampla e incrível. Meu ambiente é muito agradável.
  • Meus filhos são adultos – moramos eu e meu marido, que sai todos os dias porque adora o escritório. Casa silenciosa e não tenho que dar atenção pra ninguém.
  • Minha atividade de produção em consultoria é independente em grande parte do tempo. Consigo produzir muita coisa sem depender dos meus colegas.
  • Tenho equipamentos muito bons – notebook excelente, duas linhas de telefone em meu aparelho celular com internet que nunca acaba, wi-fi 5G de fibra ótica em casa.

E poderia acrescentar algumas outras coisas à minha lista. Mas o ponto que quero fazer é que meu home office funciona porque consigo, em função do meu momento de vida e da natureza da minha atividade profissional, ter condições adequadas para que a produtividade em casa seja altíssima. Mas sabemos que isso não é real para todos. E não porque eu seja alguma espécie de gente especial ou privilegiada. Nada disso! É só o meu momento e minha escolha de vida mesmo! Fico imaginando as casas com crianças e sem ajudantes, por exemplo. Eu jamais conseguiria fazer home office como faço hoje há doze, ou quinze anos. Minha casa grande e trabalhosa era um agito delicioso! Eu não teria o sossego ou mesmo a disciplina para sentar quieta e alheia do furdunço maravilhoso causado pelos meus filhos e meus pais com eles, ou a ajudante demandando coisas e produzindo todos os barulhos e cheiros bons da vida!

Então, antes de pregar indistintamente que home office é maravilhoso, quero contar pra vocês o outro lado da história:

  • Home office é solitário – raramente converso com alguém, os intervalos para o café são silenciosos e olhando para a vista, não tem um colega para dividir um pensamento rapidinho, o almoço é sozinha e no final do dia não tem um grupinho para, se der vontade, passar meia hora em um animado happy hour. Por isso, sempre que posso, guardo um tempo para trabalhar no escritório em São Paulo.
  • Home office exige uma disciplina absurda de alta – nunca trabalhei de pijama ou descabelada, mesmo sozinha aqui. Nunca durmo até tarde. Nunca! Acordo e levanto cedo, passo uma maquiagem mínima, visto roupa que possa trabalhar sempre com a câmera aberta, respeito os horários, não faço coisas pela casa de segunda a sexta, não assisto séries, não ligo minha música predileta, não bebo só porque tem a adega do meu marido à disposição dos meus prazeres!
  • Home office deixa a gente meio “por fora” de algumas coisas – a distância física é boa para algumas coisas e péssima para outras. O esforço para “manter todo mundo na mesma página” é muito maior. É possível, claro, mas o esforço para engajamento e sintonia cultural corporativa pertence a outra dimensão.

Há outras dificuldades e algumas angústias adicionais, mas para encurtar, lembro que home office é uma escolha com prós e contras, como tudo na vida. Não entendo que seja adequado aderirmos a um movimento social (que vejo surgindo) que romantiza a situação enfatizando apenas os benefícios existentes de trabalhar em casa. Lembrando ainda que ter os funcionários trabalhando em suas casas representa uma economia gigantesca para as empresas que podem, nesse caso, diminuir custos com infraestrutura, sempre cara nas grandes cidades. Logo, romantizar ganha feições de oportunismo pra mim.

Seguimos humanos, gostando e necessitando das trocas que acontecem como fruto da interação presencial, curtindo almoçar em boa companhia e bater um papo rápido dando risadas (no meu caso) durante a curta pausa para o cafezinho. Gostamos de estar com gente porque somos gente! Simples assim. Nossas casas jamais poderão substituir o ambiente de trabalho que gera a energia capaz de fazer das organizações espaços com personalidade própria. Minha casa jamais vai reproduzir a minha empresa. Creio que a sua também não.

E assim, defendo e clamo pelo equilíbrio entre a manutenção dos espaços de trabalho coletivos e a liberdade de poder trabalhar em casa durante um período possível e saudável, de acordo com as condições pessoais de cada profissional.

 

Baixo Consumo

Um dia eu estava saindo da sede de um cliente e uma pessoa me abordou delicadamente e perguntou: “Olá, você é a Simone Maia, consultora que nos atende”? Respondi que sim, e ela completou: “uma colega me mandou uma apresentação do seu trabalho, tinha uma foto tua e te reconheci; você estava com a mesma roupa”! Soltei uma gargalhada gostosa, confirmei minha identidade e contei que é verdade que repito muito as roupas.

Sempre tive poucas coisas – poucas roupas, poucos sapatos, poucos acessórios, um único vidro de perfume por vez, poucas panelas, poucos utensílios de cozinha, pouco quase tudo. Não tenho poucos livros. Por crença nunca gostei de acumular, de ter os armários abarrotados. Quando compro algo novo, obrigatoriamente algo tem que sair para dar espaço – físico e emocional – para o novo que chega. Também não curto ficar passeando toda hora em shopping. Gosto das coisas que tem algum valor pra alma, e não das coisas pelas coisas.

Me lembro de uma vez que um amigo muito querido foi na nossa casa e nos criticou porque não tínhamos um home theatre ou aparelhos eletrônicos de audiovisual “decentes”, apesar de termos condições financeiras para tanto. Ele foi muito incisivo e despertou em mim uma resposta atravessada (perdão, amigo!!! Rsrsrsrs): “não tenho aparelho eletrônico que preste, mas dê uma olhada nos carimbos dos meus passaportes”. Que coisa feia, Simone… E que coisa verdadeira, Simone!

A alma não tem a ver com as coisas e eu prefiro as coisas que me remetem à alma. Sou fora de moda e não me importo. Viajo com malas pequenas, a bordo! Minhas roupas duram mais que uma década. Logo, estou feliz com a conclusão de muitas pessoas sobre o consumo consciente durante a pandemia; sobre ter o que é necessário, sobre o repartir. Repartir no muito e no pouco foi a maior lição que aprendi quando eu e meu marido falimos em 2003. Reter porque se tem pouco ou porque se tem medo de ficar sem, alimenta a lei da escassez e trava a abundância na medida em que interrompe o fluxo do compartilhar entre nós. A prosperidade é fruto do compartilhar. Compartilhar de tudo: de coisas, de ideias, de momentos regados de alegria em torno da mesa!

Que nessa quarentena seja reforçado o fluxo do compartilhar entre todos nós! Compartilhar comida, compartilhar dinheiro, compartilhar amor, compartilhar compaixão. E que isso dure para além de pandemias quaisquer.

 

Carpe Diem

Há muitos anos minha terapeuta me definiu de uma forma que amei: “Além de trabalhar muito, você tem um ‘Lado B’ bem desenvolvido”, disse ela.

O Lado A é o do trabalho e das obrigações. Lado B é o que se diverte, que curte a vida, curte a família, que vai à exposição de arte para se abastecer de criatividade, que toma espumante para celebrar a existência, que enche a casa de amigos para fazer festa sem motivo especial, que guarda dinheiro para viajar ao invés de trocar de carro para evitar perda de patrimônio.

Sempre tive um traço acentuado de ansiedade. Péssimo! Claramente delineado por circunstâncias advindas das minhas escolhas, das experiências doloridas e de um imaginário muito fértil! Luto contra isso diuturnamente, e para tanto, curto o agora porque não sei como será o depois. Sim, é incoerente. Mas é assim que acontece pra mim.

E quando me vi trancada em casa sozinha com meu marido, nenhuma “Eureka” rolou por aqui. Nem tampouco nenhuma crise conjugal. A melhor companhia todo o tempo, mais receitas, mais garrafas de vinho, mais espumantes a dois ao pôr do sol, mais sexo. Nos últimos sessenta dias, quatro discussões, sendo duas por causa de bobeira durante a faxina. Chamei a diarista de volta. Pronto. Nada de brigas por causa do chão limpo! Carpe diem!

De verdade, só temos o hoje. Ontem já era e amanhã nem sei se vou morrer de Covid-19 ou de qualquer besteira que possa acometer minha carne frágil. Pra que tanta ansiedade, Simone? Para que ter tanta coisa, gente? Pra que? O que fica marcado é o que marcamos na alma. E que minha alma seja marcada pelo amor dos meus pais e dos meus filhos, pelos amigos com quem compartilho a caminhada, pelo barulho maravilhoso da rolha se desprendendo da garrafa, pelas ligações que faço e recebo, pelas viagens que fazemos, pelas orações que ecoam a favor daqueles que amamos.

 

Valorização da família

Saí da casa dos meus pais no Estado do Rio de Janeiro aos dezessete anos para fazer intercâmbio cultural e depois do retorno, aos dezoito, passei no vestibular em Brasília e me mudei de vez do interior para a Capital. Cedo para a realidade brasileira. Principalmente em se tratando do ano de 1988. Em Brasília, após ser acolhida durante cinco meses por uma família amada de amigos queridos, mudei para morar só, com uma amiga de universidade. Naquele tempo, no meio religioso no qual fui criada e convivia, recebia olhares tortos e sabia de comentários que considero maldosos de “menina solta”, “sem família”, “à procura de homem” e por aí vai. Problema dos fofoqueiros! Nunca fui solta, meu pai foi quem fez minha inscrição no vestibular da UnB pelos correios (rsrsrs), minha mãe nunca deixou de me aconselhar à distância e meu atual marido teve que cortar um dobrado de charme e estratégia para me conquistar e começarmos a namorar.

Me casei dois anos após a chegada na cidade. Ainda universitários, os dois. Que dia feliz! Que escolha acertada! Vinte anos eu tinha. E ele, vinte e três. Fomos pais pela primeira vez aos vinte e um e vinte e quatro, respectivamente. Fazem ideia da salva de críticas? Kkkkkkk Sempre fiz ouvido de mercador. Afinal, meus pais se casaram exatamente com a mesma idade, foram pais jovens – também com a mesma idade, e eu, enquanto filha, tive uma vida simples e absolutamente maravilhosa em família com eles e nossos parentes. Que medo eu tinha? Nenhum! Que exemplo eu tinha? O melhor que eu poderia ter!

Creio na família como a base da sociedade, como o berço dos nossos valores, como arco que serve para lançar flechas ao alvo distante! Amo minha família! Amo meus pais, meu irmão e a família que ele acrescentou à nossa! E foi assim que naturalmente e sem mistério criei outra família que hoje tenho como a mais preciosa herança que o Pai Criador e doador da vida poderia ter me presenteado.

Então, ao me ver presa em família para a quarentena, me senti plena, protegida, em paz, feliz até. É como se a família fosse uma cápsula mágica que me protege dos gráficos que revelam o avanço feroz do Mal de Wuham sobre o planeta. O que mais eu poderia querer?

Isso não significa que não respeite os que não queiram constituir família. Tenho dezenas de amigas e amigos solteiros. Contudo, quando os que se casam querem se divorciar, eu sempre entro em sofrimento e quero logo tentar interferir para que fiquem juntos. Eu sei. Isso é inocente. Mas estou sendo sincera: eu tenho a ilusão de que as pessoas podem ressiginificar e salvar seus casamentos, como um dia eu e Luciano tivemos que salvar o nosso, à beira de um racha.

Família é tudo de bom! É porto seguro, lugar de educação e aconchego. Família é aconchego e amor sublime manifesto em forma de gente que se relaciona de um jeito esquisito!

Não tem muita novidade pra mim na quarentena. Tenho tido vergonha de sentir e dizer isso, o que torna a frase quase que uma confissão culpada, mas ao mesmo tempo cheia de gratidão por ter uma vida boa! Uma vida que não tem nada de especial em relação à vida das outras pessoas, mas que é vivida de forma consciente de seu valor, marcada pela crença de que todo o tempo é tempo de aprender e se transformar para que a paz e a felicidade sejam presentes, apesar das circunstâncias.

 

Simone Maia

Brasília, 17 de maio de 2020.

61º dia da quarentena por Coronavírus.

 

Saudades da Quarentena

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Vou sentir saudades da quarentena.

Saudades de dormir ao lado dele todas as noites. Saudades de acordar devagar, curtir o cheiro do café preto exalando da cafeteira e dos ovos mexidos quentinhos na varanda com a vista linda da cidade.

Saudades da netinha correndo e pulando no meu pescoço para o beijo melado que marca a chegada da alegria. Saudades da filha passando por aqui para deixar e buscar, no meio da semana sem correria.

Vou sentir saudades do meu home office em boa companhia. Da simplicidade das reuniões virtuais acompanhadas da humanidade própria da vida como ela é. Todas as refeições saudáveis e acompanhada! Nem nos meus melhores sonhos previ tal alegria!

Aqui, sinto falta da correria. Mas já sei que na correria vou sentir falta daqui. Falta de não ter que sair e mesmo assim poder trabalhar o dia todinho com as pessoas e as coisas que eu gosto. Vou sentir saudades de caminhar descalça pelo belo jardim de casa enquanto trabalho ao telefone. Sem ninguém me julgar porque o canto dos passarinhos do Paraíso Verde, que é como eu apelidei nossa casa em Brasília, está atrapalhando a “call”. Vou sentir muita falta de não ter vergonha dos passarinhos do meu home office.

Vou sentir saudades das pessoas falando de amor e compaixão como o Mestre fala. Da solidariedade expressa nas ajudas que vem e vão em todas as direções. Das declarações emocionadas pelas telas dos nossos aparelhos cheios de quadradinhos que revelam a excitação de quem pode ver quem ama. Viva a tecnologia! Obrigada Deus porque agora a turma da resistência não vai mais torrar minha paciência porque meu celular é parte integrante do meu corpo e a mochila do meu computador mais parece um casco de tartaruga.

Sentirei falta das intermináveis taças de vinho que acompanham as delícias que saem da minha cozinha. Das noites batendo papo com ele no sofá, sobre os assuntos que geralmente não temos tempo pra falar.

Estou com saudades dos meus amigos. Não de falar com eles. Mas de cozinhar pra eles e depois dividir a mesa com eles. Saudade dos abraços intermináveis que a gente troca só porque a gente se ama.

Estou com saudades do meu filho. De rir com ele. De dividir o apartamento do meu Paraíso Cinza com ele. De desembarcar rápido e cruzar correndo o aeroporto porque ele já está fazendo a curva do desembarque para me pegar e irmos jantar em algum lugar da melhor cidade gastronômica da América do Sul.

Estou com saudades da quietude dos voos sem internet. Que me conduzem às salas de treinamento barulhentas e cheias de gente sentada bem pertinho. Das conversas de desenvolvimento ao vivo e em cores, que alimentam a alma e a mente. Saudade da parte mais gostosa do meu trabalho.

Mas quando toda essa saudade passar, e vai passar, vou sentir saudades da minha filha. Vou sentir saudade dessa outra saudade que vai ficar. E isso eu aprendi há 30 anos: se um dia a gente se mudar, vai passar o resto da vida sentindo saudades.

Saudade é coisa de quem se movimenta. Saudade é coisa de gente que se joga e vai pra arena, como diz a Brené Brown. Saudade é coisa de quem gosta de viver intensamente. Saudade é coisa boa! Saudade denuncia a felicidade. Saudade revela a plenitude dos momentos que vão passar. Bem-aventurados os que sentem saudade!

Bom confinamento para você! Espero que você também sinta saudades do seu.

 

Minha Quarentena

Vaca

No início resisti um pouco. Afinal, por que eu, saudável e fora do grupo de risco deveria ficar confinada ao invés de trabalhar para manter as coisas rodando? Mesmo assim, ao sair do escritório no dia 17 de março, após ter minha viagem da semana cancelada pelo cliente, vim para casa e dei início à recomendação da OMS, dos governos e dos milhões de chatos nas redes sociais gritando #ficaemcasa na minha cabeça.

Obediente que sou, fiquei entre a minha casa e a casa da minha filha que é minha vizinha durante 24 dias ininterruptos e ontem saí pela primeira vez para ir rapidamente ao mercado. Deprimente. Mascarados na rua, distantes uns dos outros, é uma visão horrorosa. Melhor ficar em casa mesmo. Mas eu definitivamente não entendo porque temos que ficar TODOS presos, ao invés de selecionarmos com inteligência e seriedade aqueles que devemos proteger.

A expressão “confinada” me faz sentir como uma vaca idiota, parte de um rebanho de não-pensantes, agindo em cadeia por consequência de um governo ditador, autoritário e repressor, para o qual a liberdade de ir e vir simplesmente não existe.

Bem, mas certa de que a burra e ignorante do pedaço sou eu, e não os bilhões de seres humanos que estão voluntariamente confinados em suas casas, sigo aqui na quarentena, vivendo feliz! Até ontem.

A primeira semana foi fichinha: moro no paraíso, amo meu marido e estar com ele por vários dias ininterruptos é um presente pra mim; gosto de cozinhar, já sei trabalhar em home office desde sempre, faço reuniões e apresentações online como parte da minha rotina, lido bem com a solidão e o isolamento próprio da minha vida de consultora. Home office igual, só que com companhia. Muito interessante essa primeira semana!

Na segunda semana decidimos hospedar uma amiga amada que mora sozinha e não estava bem. A presença dela na nossa casa trouxe novas conversas e novos pratos na cozinha entre uma reunião e outra de trabalho. Ela entrou na nossa rotina e seguimos a segunda semana com muita chuva e um pouco de tristeza. Não gosto quando o sol não me visita! Mesmo assim cozinhamos coisas gostosas, caminhamos, bebemos vinho, rimos, choramos, nos irritamos. Ao final da segunda semana, comemoramos o aniversário dela com bolo de sereia com cobertura de chocolate feito carinhosamente pela minha filha e minha netinha e cantamos parabéns umas 10 vezes ao som do Bita. Um domingo feliz!

Na terceira semana voltamos a ser nós dois, com as visitinhas agora regulares da nossa netinha Amélie, pois papai e mamãe não tem mais a ajuda da maravilhosa babá e precisam dar aulas online! Quando isso acontece, a menininha bebê sai da escola virtual de lá e vem para o home office de cá! A troca de imagens dos pratos no grupo dos primos já ficou sem graça e a leveza de ficar em casa deu lugar a um cansaço horroroso por ficar entre 10 e 12 horas diárias em frente ao computador como mediador da maioria das nossas relações. E a semana voou. Sem graça. Sem sal. Mas com sol! Viva Deus!

E a quarta semana só seguiu: algumas novas perspectivas de trabalho e renda à vista, boa aceitação de algumas iniciativas digitais trazendo excitação para a rotina que já perdeu a graça. Aliás, detesto rotina. Quando meus filhos eram pequenos e a rotina era necessária, eu sempre dava um jeito de saborear uma quebra vez ou outra, com eles ou sem eles. Vou repetir: detesto rotina, detesto tudo igual, detesto ir para o mesmo lugar e fazer a mesma coisa todo dia. Imagina então a irritação que começou a acontecer FICANDO no mesmo lugar todo dia!

E aí ecoam as vozes da internet: gratidão, tempo de reflexão, oportunidade de repensar a vida. Que romântico! Minha quarentena é bem diferente disso. Não tem nada de romântico por aqui. Tem sim a percepção de que este é um tempo difícil e triste, durante o qual devo prestar ainda mais atenção ao meu redor. Talvez a ausência do romantismo seja porque eu já tente ter a vida em dia. A vida espiritual, principalmente. Não acho que Deus (ou o Universo para alguns dos meus amigos amados) esteja nos castigando e nos deixando “no cantinho” para pensar, como se fôssemos crianças. Por favor! Que inocência. Essa doença é pura consequência de um mundo mau, desregulado, distante do Criador. De governantes inconsequentes, criadores de bichos novos, um atrás do outro. Esse só foi piorzinho. Para nossa desgraça.

Talvez esteja infeliz desde ontem porque eu não preciso ficar aqui confinada para refletir. Eu reflito sendo livre mesmo! Eu amo sendo livre. Eu doo sendo livre. Eu ligo para os meus amigos quando me lembro insistentemente deles, porque creio que este é um sinal do Espírito Santo. Sempre tenho a casa cheia de gente que eu amo e de outras que nem amo tanto assim, mas precisam de companhia e amor. Não preciso esperar acabar a quarentena para abraçar as pessoas que eu amo e encher minha mesa de gente! Faço terapia regularmente para não acumular minhas amarguras e oro com bastante frequência clamando a Deus para me livrar do meu egoísmo, da minha impaciência, da minha impulsividade e da minha boca grande e reclamona. Vivo refletindo. Vivo analisando se estou feliz e mudando para ficar feliz. Vivo correndo atrás da mudança de atitude quando acho que estou sendo uma pessoa horrível. E sou horrível sempre. Ninguém precisa me confinar para eu fazer essas análises.

Então, não tem oportunidade extraordinária pra mim não. Tem sim a privação da minha liberdade. Tem a irritação que acontece porque estou vendo tantas vidas em agonia, tantos perdendo empregos e tantos sonhos empreendedores ruindo. E me irrito mais ainda porque os salários de quem me manda ficar em casa estão garantidos até o fim da existência. Que tal fazermos um combinado? Os salários de todos os políticos e de todo o funcionalismo público só ser pago até maio e depois cada um tem que se virar para pagar boletos, igual o resto dos pobres mortais? Ai, que raiva. Está aí uma demonstração clara do meu pecado.

Bem, pra mim deu. Impaciente? Sim. Arrogante? Para alguns sim. Mas uma coisa é certa: não vou fazer coro com a humanidade para santificar um momento terrível em que o mundo se encontra.

Santidade acontece no dia a dia.

Amor acontece nos encontros todos e de todo dia!

Ajuda ao próximo é estilo de vida e não acontece por campanha.

Abraços? Dou muitos! Quem me conhece sabe!

Gratidão? Sei que tudo o que sou, tenho e faço é por misericórdia e graça do meu Deus Pai. Como não ser grata? Faço declarações de gratidão aos meus clientes e declarações de amor à minha família quase todos os dias.

Amo, honro, respeito e valorizo meus pais idosos como princípio. Não preciso de vírus nenhum para me preocupar se eles estão bem e felizes e seguros.

Propósito de vida já tenho faz tempo!

Amigos à mesa tenho incontáveis. Obrigada, amigos-irmãos amados!

Deus e esperança tenho sempre! Vez ou outra sou discriminada no mundo dos negócios por isso.

Dívida? Já trabalhei por 7 anos só para pagá-las. Vou ter de novo? Talvez! Estou preocupada? Não! Se eu dever, vou dever junto com a maioria das pessoas. Tudo bem também!

Paciência? Tenho pouca por natureza.  Vou aproveitar esses dias para desenvolvê-la. Antes de resolver fugir do meu próprio paraíso para me encontrar livre novamente.

 

Simone Maia, 25º dia de quarentena por Corona Vírus.

Brasília, 11 de abril de 2020.

 

Paciência de Vó!

Paciência de Vó.

Ooops, não!!!

Não é Paciência de que fala. É Paciência de Jó.

Aaa, deixa pra lá! Paciência de , Paciência de , é tudo a mesma coisa! Certeza. Amélie que me ensinou isso.

Amélie é minha netinha de 1 aninho. Linda, tranquila, amorosinha, sorridente, bem-humoradinha e obediente. Fácil de cuidar, gostosinha de amar! Amélie ficou doente pela primeira vez há 1 semana. E tudo para ela virou chatice, choro, dengo e reclamação. Tadinha… E foi aí que descobri algo que eu não sabia: que existia tanta paciência instalada em algum compartimento secreto dentro de mim. Manifesta plenamente pela primeira vez na vida na minha “Pessoa-Avó”. Cuidei dela, alimentei, brinquei, ninei e fiz tudo sem qualquer alteração mínima de humor. Sem um único suspiro. Ela queria colo, eu dava – toda hora, quantas vezes ela quisesse. Ela chorava, eu acalentava, sorria, cantava pra ela. Contei histórias, fiz várias mamadeiras que ela não mamou, tentei vários alimentos que ela não comeu e meu bom humor e meu carinho estavam lá, intocados. E foi quando de repente me dei conta e me perguntei: “Paciência, sua linda, aonde você esteve escondida durante todos esses anos”?

Sempre fui uma pessoa muito impaciente. Ainda me considero assim. Menos do que era quando jovem, mas ainda sou imediatista, acelerada, pra ontem. Mas de repente descobri que tenho a capacidade antes desconhecida de simplesmente manter a calma e fazer o que precisa ser feito com amor e um sorriso no rosto. Aparentemente, coisa típica de vó, porque, como mãe, passei meus dias respirando fundo. Que mistério…

Mas o bom uso da paciência pode extrapolar tanto a nossa vida de avós! Essa é uma virtude necessária para tantas coisas, aplicável a tantas circunstâncias!

Paciência para ensinar algo a alguém e repetir dezenas de vezes enquanto acompanha e aguarda o outro incorporar e desenvolver o aprendizado que recebeu de nós.

Paciência para aprender algo novo e praticar o necessário até o hábito mudar ou o conhecimento definitivamente se instalar.

Paciência para escutar o que as pessoas querem nos contar.

Paciência para acolher notícias tristes e esperar a dor passar.

Paciência para viver os muitos desconfortos naturais da vida no trabalho.

Paciência para aguardar o correto tempo que Deus determina para que algo chegue até nós.

Ou simplesmente paciência para esperar o dia de virar Vó ou virar Jó para conhecer a bendita paciência!

Simone Maia, abril 2019.

Nós, as Mulheres!

Cá estou eu escrevendo durante um vôo. Pra variar!

Na cabine de comando, uma pilota chamada Ariadne. Lindo! Posto máximo na aviação. Da minha cadeira, computador no colo, faço intensa análise de múltiplos dados sobre a situação das mulheres no mercado de trabalho, me preparando para as duas palestras que farei em comemoração ao Dia Internacional da Mulher – uma no Citibank, em São Paulo, e outra no Ministério das Minas e Energia, em Brasília.

Enquanto lia alguns dados, fiquei refletindo sobre minha própria crença de que somos capazes de conquistar de maneira inteligente um belo espaço no trabalho e no mundo por meio da nossa competência explícita. Não sou uma ativista ou militante. Dizem que sou feminista, mas sequer me identifico com o termo. Me identifico sim com as mulheres! Com todas elas! Amo ser mulher! Amo o feminino. Logo, podem me chamar do que ficar melhor para cada uma e cada um!

Tenho um amigo que diz que sou sua “amiga-macho”. Dizem que sou fora do padrão. Sou nada! Qual padrão? Além do padrão do Criador, que me presenteou com a bela e maravilhosa capacidade de gerar vidas e amamentá-las com exclusividade, quem mais estabelece um padrão ou limita atividades para mim e para nós, mulheres? Quem diz quais as profissões e posições podemos ou não ocupar? Quem determina o que eu vou ou não vou fazer? Meu limite é minha própria vontade e minha própria capacidade de realizar alguma coisa. Desde que eu dê conta de realizá-la de maneira ética, com qualidade e segurança!

Vivo em comunidade cristã. E aí sim começa a confusão na cabeça do povo. Diz a Bíblia que devo ser submissa ao meu marido. Eita versículo da controvérsia! Todo tipo de interpretação para gerar conforto no meio da mulherada e não aborrecer os homens que “devem amar suas mulheres como Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela”! “Sob a mesma missão” é a interpretação mais confortável para as partes no século XXI. Não bastasse eu ser cristã casada, sou a mulher do pastor. Ish, agora lascou de vez! (Risos!!!) Independente, muda de cidade e leva a família junto, viaja sozinha toda semana, fala por si, participa tanto da roda de conversa das mulheres quanto da dos homens, ganha dinheiro, administra dinheiro, blá, blá, blá. Respeita o marido, contribui ativamente na igreja, arruma a casa, cozinha para si, para o marido e para os amigos, lava a louça, educa os filhos (essa não acaba nunca e eu amo!), cuida da netinha, lava as roupas, vai ao mercado e à feira, administra a diarista, blá, blá, blá. Qual parte mesmo que é minha? Qual padrão mesmo devo seguir? Todas as partes são minhas! Todas as que eu gostar e quiser são minhas! Desde que siga em respeito, harmonia e acordo com aqueles com quem divido a vida, sendo hoje, o mais importante deles o meu marido.

Mas qual é mesmo o marido que vai escolher sua profissão? Qual é mesmo o marido que vai dizer se você pode ou não trabalhar? Por que? Quem disse? Onde está escrito?

Confundo mesmo. Sei que confundo. Pois quem me conhece bem de perto sabe que o Luciano, meu marido, governa minha alma! Ele é o dono dos meus melhores sonhos e dos meus maiores desejos. É a companhia que mais gosto. A presença mais forte e amorosa na minha vida. Meu porto seguro. O ser humano que mais admiro e respeito. Meu acalento e meu maior amor! Mesmo assim, pode deixar que eu pago parte das nossas contas! Meu trabalho escolho eu. “Vou ali em São Paulo e já volto, amor!” Da minha agenda e dos meus clientes cuido eu. Uma coisa não exclui a outra. Esse é meu ponto! Não há padrão, mas sim escolha. Talvez não seja compreendida porque apesar de me submeter à missão  do meu marido, não sou doce. Não sou suave e muito menos delicada. Ao contrário, sou intensa, forte, firme, corajosa, autoconfiante. Só por isso mando em alguém? Em ninguém mais! Luciana e Pedro já partiram para suas lindas vidas! Sou dona de alguém? De ninguém! Mas sou dona das minhas escolhas. Aaaah, mas isso eu sou! Se Deus meu Criador e Pai me dá o direito da escolha, não haverá ser humano que será capaz de me convencer do contrário. De que não posso escolher, de que não posso isso ou não posso aquilo. De que não posso ir, ou voltar, ou amar, ou cozinhar, ou cuidar, ou trabalhar por 20 horas seguidas. Sou dona do meu espaço. Sou responsável pela minha conquista. Sou também apoiada e amada em todas elas. Cedo na vida pelos meus maravilhosos pais, e atualmente pelo meu marido e filhos.

Quem vai dizer mesmo qual trabalho você pode ter? Quem vai determinar mesmo qual posição ou cargo você pode ocupar? Quem vai dizer a quais grupos você pode pertencer na Igreja? Quem vai mesmo determinar o tamanho da sua competência? Quem pode limitar suas conquistas?  Ninguém pode!

Seja linda! Seja plena! Seja promovida! Seja grande! Seja inteira, integral, intensa! Respeite – você, seus pais, seu marido, seus filhos, seus colegas de trabalho, seus amigos. Faça o que gosta! Produza! Ame! Seja a mulher que você quiser ser!

Simone Maia

BSB – CGH, 27 de fevereiro de 2019.

SE NÃO FOR POR PAIXÃO, NEM QUERO VIVER.

paixao

Passei os últimos dez meses atormentada por um problema de saúde que consumiu minhas emoções em preocupações, meu tempo na busca de soluções, meu sono e consequentemente minha energia, e finalmente meu dinheiro em várias consultas médicas alternadas com dois profissionais.

Dois profissionais que nunca escutaram verdadeiramente o que eu estava sentindo, contando, e muito menos o que eu estava vivendo. Dois profissionais aparentemente bem-sucedidos em seus escritórios, ou melhor, em seus consultórios, mas que foram incapazes de simplesmente fazer o que estavam ali para fazer.

Cansada da falta de solução, persegui como louca uma médica recomendada por uma amiga, também médica. Professora universitária, com boa fama e agenda restrita. Entre minhas viagens frequentes, minhas idas e vindas e meu sufoco, finalmente consegui encontrá-la. Fiquei boa em uma semana. Uma! Uma única e preciosa semana! Uma semana que sucedeu uma conversa – oops! Uma consulta de quase uma hora durante a qual fui escutada com atenção, em detalhes que me eram perguntados à medida em que eu contava minha via crucis. Uma consulta com todas as explicações que eu nunca havia recebido. Uma consulta interessada, temperada por um olhar que me acolhia, um sorriso que acalentava a minha alma e fazia renascer a esperança de melhorar!

O episódio me fez refletir mais uma vez sobre um velho assunto que aparentemente ainda está longe de ser senso comum: a diferença brutal que existe entre os profissionais apaixonados e competentes e todos os outros. Dra. Nadja não fez milagre, não receitou algo impossível, não cobrou R$ 2.000,00 na consulta. Ela só usou o conhecimento profundo transformado em diálogo simples e leigo para corrigir o erro dos outros dois e promover a minha cura. Simples assim.

Paixão associada à competência dão um resultado imbatível e transformador. Transformador para quem dá e para quem recebe.  Profissional competente que não sente profundo prazer no seu trabalho é só mais um que realiza, que cumpre, que cobra e recebe pelo que faz. Profissional competente e apaixonado se envolve, se dedica, vibra, se diferencia e transforma. À medida em que transforma, melhora a vida das pessoas e o mundo ao seu redor! Vive para si e vive para os outros.

Paixão independe da profissão. Ela é vista nos olhos, vivenciada na interação, comprovada no resultado de qualquer segmento. Sim – paixão competente gera resultado superior. Mas como falar em paixão é brega e na maioria das vezes considerado irrelevante no mundo organizacional, seguimos buscando resultados extraordinários apenas nas planilhas do planejamento estratégico e nas análises dos fatos e dos dados. Quem me dera a paixão pudesse ser diferencial competitivo daqueles que também aprenderam a lidar com as planilhas, os fatos e os dados! O mundo seria outro.

Passei da idade de dar conselhos indistintamente. Jovens gostam mais de dar conselhos. Adultos maduros geralmente evitam os conselhos do tipo:

– “Procure um trabalho pelo qual se apaixonar”!

– “Corra atrás da sua paixão”!

– “Se você não é apaixonado, mude de profissão” e blá, blá, blá!

Então, aqui me resta lhe desejar boa sorte! Que seu caminho cruze com o caminho dos profissionais competentes apaixonados, que acordam todos os dias por uma causa; aqueles que têm o privilégio de realizar aquilo em que acreditam.

Que seus médicos sejam apaixonados pela medicina! Que seus professores sejam apaixonados pelo ensino! Que seu chefe seja apaixonado pelo que quer que seja que ele ou ela faça! Que seu cabelereiro seja apaixonado pelos seus cabelos, que seu fisioterapeuta seja apaixonado pelo Pilates…. Lhe desejo boa sorte na sua lista! Que assim seja, pois desse jeito, sua vida será mais fácil, mais bela, mais gostosa e mais saudável. Tenho certeza!

O meu agradecimento à minha amiga Mariana Dietz, médica apaixonada.

Deixo também minha homenagem e reverência àqueles que, como eu, pagam o preço de todas as suas paixões.

 

Simone Maia

Brasília – São Paulo, 17 de setembro de 2017.

Fiquei em casa para encaixar a alma no corpo!

Hoje não fui à igreja pela manhã. Entre a alegria de ir e a vontade de ficar, venceu a segunda – fato que me fez refletir, pois ao longo dos meus 46 anos de vida, raros são os domingos em que não tenho vontade de ir à igreja pela manhã. Por que eu não quero ir??? Até o Google já sabe e fez questão de me lembrar quanto tempo eu levaria até a igreja, mesmo depois de passada a hora usual de sair de casa!

Levantei, arrumei cuidadosamente a nossa cama e ao terminar pensei: “Simone, comece pela bicicleta. Tem viajado muito e fazem 2 semanas que você não pedala”. Eu mesma respondi: “Aaaahhh não… que saco. Bicicleta? Não fiquei em casa para andar de bicicleta. Não quero fazer nada”. Fui ao banheiro, olhei no espelho, me deparei com a imagem engraçada do cabelo todo zoado depois de ter ido deitar com ele molhado e me convenci: “Aproveita que esse cabelo tá uma zona, enfia aquele capacete na cabeça e vai logo pedalar um pouco”. Pronto. Depois de uns 5 minutos de diálogo de convencimento interno, coloquei a calça de bundinha (ridícula aquela calça! Hahahaha), calcei o tênis, peguei o celular com os fones de ouvido, liguei a música, enfiei o capacete e saí pelo portão de bicicleta. Claro que olhei a hora! Sempre cronometro para ver a hora de terminar a tortura.

Saí morro acima e morro abaixo e aos poucos a sensação gostosa de estar fazendo o que eu deveria fazer me invadiu. Tentei me desprender do tempo que faltava para terminar a tortura e comecei a curtir o fato de estar cuidando da minha saúde, respirando a brisa gostosa que sopra em Brasília durante a época da seca e segui meu passeio.

Ao voltar para casa, pluguei o celular na JBL e pulei no banho. Banho longo. Na sequência, vagarosamente curti um ritual de esfoliações e cremes, sequei cuidadosamente o cabelo, passei perfume e o “pretinho” dos olhos e de repente me dei conta do quanto eu não tenho prestado atenção no que estou fazendo. Há quanto tempo eu não tomava banho e usava um tantão de cremes cheirosos – um para cada curva da cabeça aos pés, como se não houvesse amanhã e nem nada para fazer depois? Há quanto tempo eu não entrava no banho sem pensar na merda do racionamento de água brasiliense, depois de ter me livrado do racionamento de água paulistano? Sim! Sou dessas que fica com a consciência pesada por não tomar um banho de 2 minutos e por molhar minimamente as orquídeas nas árvores do meu jardim enquanto a companhia de água apita na minha orelha que a água do planeta vai acabar e vamos todos morrer secos.

Terminei o ritual. Longo. Cheiroso. Prazeroso. Senti fome! Fiz uma xícara de café, mexi os 2 ovos nossos de cada dia e sentei na bela varanda da minha casa com um livro na mão. Que delícia! Aos poucos, enquanto lia, minha mente desviou das páginas do livro para a sensação deliciosa que eu estava sentindo. Corri e peguei o computador para registrar a revelação repentina daquele momento:

“Fiquei em casa para encaixar a alma no corpo”!

Encaixar a alma no corpo para sentir o momento, seja ele qual for. Aquietar. Encaixar a alma no corpo para parar de ficar doente. Encaixar a alma no corpo para descansar. Encaixar a alma no corpo para curtir a vida.

A reflexão da manhã, não por acaso, vai ao encontro da minha necessidade dos últimos dias, de interromper o automático da vida para prestar atenção naquilo que está acontecendo comigo e ao meu redor. Digo isso porque entendo que a minha virtude tem feito uma sombra enorme na minha rotina. Explico: a disciplina, virtude que tenho de sobra, me leva a cumprir minhas obrigações e fazer o que precisa ser feito sem refletir muito sobre a raiz, o propósito ou a conveniência daquilo que faço. Assim, convivo com pessoas que não me trazem alegria, sobrecarrego meus dias com compromissos sociais que na verdade não me dão tanto prazer, aceito trabalhos diversos que me fazem viajar como um piloto, aceito tudo que me oferecem e por aí vai!!! Por que? Pra que? Como?

Na verdade, a origem da minha crise está um pouco (ou totalmente) relacionada à minha educação cristã quanto à virtude, ao perdão e à resiliência. À ordem de tentar amar o povo que me trai, tentar fazer as coisas que não quero, tentar perdoar aqueles que me enchem o saco com palavras ou atitudes ofensivas. É difícil demais ser como Cristo ordena que eu seja! Difícil dar a capa para o fdp que tenta arrancar a minha blusa o tempo todo. E mais difícil ainda é viver com um representante de Cristo me lembrando, diuturnamente, que devo ser como Cristo foi. E o pior: me lembrando por atitudes, e não por palavras. Aff… isso beira o impossível!

O que me resta fazer? Prestar atenção!!! Sair do automático para curtir meus amigos de verdade! Beber os vinhos que gosto! Conviver mais com meus pais, lindos, que amo tanto! Ir visitar mais meu irmão, um dos homens de Deus mais virtuosos que conheço! Ser mais amável com meu amor Luciano, que me enche o saco apenas de vez em quando (como agora, nesse minuto, balangando sobre eu estar terminando esse texto na mesa do almoço só porque eu quero), curtir mais os meus filhos criados, lindos e responsáveis, que são a maior alegria que tenho sobre a face dessa Terra estranha e louca!

Saia do automático e carpe diem, Simone!!!!

 

MEUS CABELOS BRANCOS

whatsapp-image-2016-11-13-at-14-35-54Tenho meus cabelos belamente brancos desde antes dos 40. Não sou modesta quanto aos meus cabelos! Eu os acho um charme e, quanto mais brancos se tornam, mais os acho lindos. Eu sei: a falta de modéstia é algo condenável. Mas sinto muito: eu amo meus cabelos brancos!

As pessoas me perguntam como meu cabeleireiro chegou na cor, qual o número da minha tinta, como eu faço para mantê-la, etc e tal. Minha resposta de sempre: “Meu cabeleireiro é meu amigo Fred Fick há 20 anos, esse cabelo dá um trabalho danado para manter, e eu não sei o número da tinta”. E o diálogo continua até eu convencer o interlocutor de que a coloração só é possível porque meu cabelo é verdadeiramente branco. Muito branco! E que a tinta é só para igualar um pretinho que insiste em não embranquecer. Parece um kipá judeu! Trem chato!!! Por muito tempo, andei com cartões de visita do Fred junto aos meus próprios cartões na bolsa!!!

Meus cabelos brancos são cheios de alma – me conectam ao meu pai, de quem sou uma cópia feminina. Me lembram do meu avô Enoch, quem eu sempre achava sentadinho no mesmo banco da igreja pela linda cabeleira branca! Ele sempre estava lá antes de nós!

Aahh! E meus cabelos brancos também me renderam um apelido: “Miranda”. A-D-O-R-0!

Também tenho rugas. Muitas! “Sua pele é muito envelhecida para a sua idade!”, diz a dermatologista cheia de soluções para mim! As rugas também são as mesmas do rosto do meu pai. E assim como meus cabelos brancos, estão aqui faz tempo! Uso mil cremes há mil anos, gasto a maior grana preta com eles, não saio sem protetor solar, não durmo de maquiagem, uso as melhores marcas de maquiagem do mercado, e blá blá blá e não adianta nada! As rugas não me abandonam por nada nesse mundo! De verdade? Não ligo pra elas. Nunca liguei! De vez em quando minha bela amiga médica Carol me convence a colocar um botox de leve! Hahaha! Bela Carol!!! No casamento da minha filha Luciana, me deu a aplicação de botox de presente, dizendo que “a mãe da noiva tinha que estar com a testa lisinha!” Obrigada, Carol!

Tanto os meus cabelos brancos quanto as minhas rugas incomodam mais às pessoas à minha volta do que a mim mesma! Volta e meia recebo uma indireta ou uma direta acerca de algo que devo fazer. Não faço nada! Desculpem, amigos!

Sempre lidei bem com o envelhecimento. Acredito que isso se explica pelo fato de que sempre curti e aproveitei muito a vida em cada uma das suas fases. E a gente fica velha e velho mesmo. Ponto.

Até que… os 40 e poucos anos chegaram. E chegaram rasgando. Ameaçando. Me ameaçando. Muito. Comecei a olhar demais para os corpos lindos das jovens, comparando-me com elas, comecei a reparar que algumas amigas mais velhas do que eu não tem nenhuma ruga e que ninguém deixa o cabelo ficar branco. Cabelo branco? Que horror! Não pode ter nem uma raizinha. E tem que ser escuro como o de uma menina nova. E de preferência comprido para manter a juventude. Percebi, repentinamente, que sou uma mulher totalmente fora de moda. Aliás, nunca sei o que está na moda! Compro roupas clássicas de excelente qualidade e elas duram anos!!! Todos que convivem comigo sabem que eu sou a mulher-da-roupa-repetida. Mas comecei a reparar nisso também: minhas amigas coloridas e sempre de roupas novas e atuais! E de repente, não mais que de repente, ao final deste cruel processo, enxerguei uma senhora enrugada de cabelos brancos, desatualizada, de roupa velha e feia em frente ao espelho.

Fase horrível. Triste. Cansativa. E inútil. Muito inútil. Jamais voltarei a ter a pele lisa, os cabelos longos viçosos de uma bela moça de 20 anos. Jamais voltarei a ter o belo corpo que enlouqueceu meu então namorado, meu marido há 25 anos! Nunca! Passou. Não tem jeito. Posso malhar 3 horas por dia, usar todos os cremes que meu dinheiro puder comprar ou usar técnicas de deixar a cara lisa e que dão um resultado que eu acho ridículo. Odeio aquelas caras femininas artificiais de produção em série, com as bochechas falsas e aquelas bocas de pato que me dão vontade de rir e me fazem pecar porque eu sempre solto um comentário bem humorado e bem maldoso. Deus que me perdoe antecipadamente.

Durante esta fase triste, me perdi e tive que me procurar. Não sabia para onde eu havia ido. Perdida fiquei por um bom tempo. Amarga, irritada e odiando o passar dos dias. Me lembro uma noite na casa dos meus queridos amigos Marcelo e Vivi. Os dois alegres, falando que a vida estava boa, e, entre uma taça de espumante e outra, contando como estava sendo gostoso amadurecer. Eu respondi, rebelde e inconformada, que estava achando uma merda. Excuse my French. Reclamei. Protestei. Xinguei e expliquei minha ira. Como resultado, devo ter ganho mais uma ruga de cada lado. Adiantou nada, pois os meus dias continuaram a contar normalmente.

Ontem Marcelo e Vivi vieram jantar aqui em casa depois de uma peça em um teatro que fica logo ali ao lado. Em meio a mais taças de espumante, assuntos gostosos e muitas risadas, Marcelo pergunta: “Si, e você? Está lidando melhor com o envelhecimento?” Levei um leve susto inicial, mas não precisei pensar nem 10 segundos para responder sinceramente: “Sim, amigo. Estou ótima!”.

Para completar, hoje meu Amor leu alguns textos em Eclesiastes para mim. Rimos muito juntos porque Salomão foi um cara muito sábio que teve a cara de pau de dizer na lata coisas do tipo: “curte a sua vida aí, aproveita bastante porque todo mundo vai morrer – o bom e o mau vão morrer”.  As palavras de Salomão, a ressaca das férias, as 2 últimas semanas inteiras e tranquilas em Brasília (coisa rara!) e a pergunta do meu amigo Marcelo me fizeram dar sequência à reflexão e chegar à feliz constatação: A FASE TERRÍVEL PASSOU!!!! Graças ao bom Deus passou! Coisa chata era ficar agarrada por um fio a uma juventude que já acabou. A fase horrível passou porque larguei mão da busca cansativa de uma Simone na outra, a qual simplesmente não existe. Eu não existo nas minhas amigas de pele linda. Eu não existo nos belos corpos jovens das meninas. Eu não existo nas lindas imagens das revistas. Eu não existo no meu passado jovem.

A fase passou porque me reencontrei.

Me reencontrei na tranquilidade da varanda da minha casinha com a vista mais linda que eu poderia querer.

Me reencontrei na plenitude e na paz da companhia maravilhosa do meu Amor, enquanto compartilhamos maravilhosos dias tranquilos e felizes.

Me reencontrei na lembrança e na prova viva de que Deus caminha todos os dias ao meu lado, cuidando com carinho de mim.

Me reencontrei feliz e realizada dentro dos vôos corridos de idas e voltas maravilhosas e cheias de energia de Brasília para São Paulo, entendendo que de fato tenho duas casas.

Me reencontrei no valor dos meus cabelos brancos e na segurança do meu olhar marcado por muitas rugas, os quais chancelam a experiência necessária para compartilhar minha vida e meus saberes com tantos líderes em empresas onde eu jamais previ que poderia estar!

Me reencontrei na companhia alegre e divertida das dezenas de amigos que me fazem companhia ao pôr do sol, enchendo a minha varanda de som, de amor, de alma!

Me reencontrei na beleza da juventude da Luciana e do Pedro Henrique, meus filhos lindos e muito amados!

Me reencontrei nas múltiplas idas à praia ao longo de 2016 para visitar os pais mais maravilhosos do mundo, meu irmão amado, minha cunhada Jaque querida e meus sobrinhos carinhosos Luisa e Bernardo!

Me reencontrei nos meus livros, no meu gosto pela cozinha, na arrumação da minha casa, na minha nova horta de manjericão a partir da mudinha da minha querida Anna, nas minhas orquídeas floridas nas árvores em frente à varanda com a vista do pôr do sol mais linda que eu jamais poderia querer!

Me reencontrei na felicidade de me permitir ser simplesmente quem eu sou e quero ser, sem a luta inglória de tentar ser o que jamais, aos 45 anos, eu conseguirei ser: jovem!

O tempo não rouba nossa essência, tudo isso faz parte de um ciclo. Permanecemos nós mesmos, só que mais velhos. Então, em vez de esconder suas marcas, comemore uma a uma. (Ana Holanda, Vida Simples, edição 177, 2016)

Simone Maia, em Brasília, 12 de novembro de 2016.

Meu Mundo

Mulher e praia

Hoje em dia entramos tão facilmente dentro do mundo do outro, que às vezes perdemos a referência acerca do nosso próprio!

Viagens, fotos, sorrisos, chegadas e partidas, festas, dramas, protestos, comemorações e reclamações, dizeres e reflexões variadas que nos permitem viajar pelo outro, pelo intangível, pelo inexistente com facilidade jamais experimentada.

De vez em quando tenho a sensação de que estou sendo levada aos poucos pela correnteza leve e despretensiosa da beira do mar, que me afasta da areia da terra firme em direção às águas profundas da comparação, da ambição, da imaginação e da solidão de águas profundas. Quando me percebo afastada demais, bato os braços de volta para a margem, como se acordada de um sonho. Estranha sensação!

Na vida virtual, qualquer realidade é passível de ser cuidadosamente construída! Qualquer realização pode tomar a dimensão do olhar do observador. A criação ganhou asas jamais vistas! Suposições, desilusões, reaproximações!

Há 3 semanas, algumas colegas da minha adolescência tiveram a ideia de reunir virtualmente nossa turma de colégio / segundo-grau / ensino médio. Pode chamar do que você quiser!!! Devem ter demorado 3 dias para achar e “re-unir”, mundo afora, umas 25 pessoas dispersas há quase 30 anos. Siiim, eu disse trinta longos anos de separação. Que coisa maravilhosa! Que milagre tecnológico! Que feito sensacional! Que delícia reencontrar os queridos de tantas risadas e aventuras! Que maravilha passar horas combinando histórias diversas para interpretar quem é quem! Quem é esse? Quem é aquela mesmo? Cadê o fulano? Quem é esse ao seu lado na foto? Lembra de mim? Hahahahahaha!!!! Passei horas conectando nomes a apelidos e rostos, associando cabeleiras e carecas. Me assustando com os cabelos brancos – principalmente com os meus!

Euforia inicial transformada em “Bom dias” e mensagens carinhosas me fazem pensar que aquelas pessoas não existem mais! Somos outros. Transformados. Renovados. Mas, por dias mergulhamos em uma realidade virtual poderosa, capaz de nos transportar da segurança e estabilidade da areia para a excitação de uma nova e desconhecida jornada em alto mar! Capacidade poderosa! Conectar, desconectar, reconectar em segundos.

Invariavelmente, veio a vontade de reencontrar, rever, abraçar e gargalhar. Gargalhar de um tempo recriado virtualmente, em nossa memória e imaginação. Básicos, previsíveis e humanos que somos!

Será a navegação o ópio do nosso tempo?  O quão distante seguimos mar adentro, deliciosamente embalados pelas marés da nossa imaginação?

Sigo refletindo acerca da realidade transformada pela ilusão de um mundo imaterial, feito de ondas que me balançam e me transportam, um tanto quanto tonta, do meu mundo próprio para tantos outros quantos for a minha vontade de viajar!

Simone Maia, viajando, em 26 de julho de 2016.