O Tempo – First Round

Nesse início de ano eu e meu marido aproveitamos a calmaria profissional e tiramos um tempo para organizarmos pequenas coisas em nossa casa: as centenas de rolhas de vinhos e espumantes que colecionamos ao longo da nossa vida juntos foi um dos alvos da nossa organização.

Compramos dois vidros lindos enormes e chegamos em casa animados para transferirmos rolhas espalhadas em vários vidros menores e também guardadas em uma bolsa gigante dentro do armário para os dois vidrões novos. Primeira surpresa: os dois lindos vidrões novos não dariam nem pro cheiro! A quantidade de rolhas guardadas era grande demais! Tomamos então uma decisão: vamos selecionar e guardar apenas as rolhas que estão escritas com nossas lembranças e descartaremos as demais.

E assim começamos a seleção. Espalhamos o conteúdo da primeira grande bolsa de rolhas no chão e começamos a separar. É claro que nos perdemos em nossas próprias lembranças, risadas e gravação de pequenos vídeos para envio aos vários amigos mencionados nas ditas rolhas escritas.

O que foi esse dia aqui? Você lembra?

– Ahahahaha!!! Esse dia foi bom demais.

– Quem é essa pessoa? Kkkkkkk

– Que saudade dos amigos! Envia um vídeo pra eles com essa rolha?

– Essa é segredo! Ahahahah

– Nossa! Isso aqui já tem isso tudo de tempo?

O prazeroso “serviço de organização” foi demorando muito mais do que havíamos previsto à medida em que íamos nos divertindo e, ao final, praticamente enchemos os dois vidros novos com as nossas lembranças de bons momentos registrados nas muitas rolhas e dos muitos brindes que compartilhamos entre nós, nossas famílias e amigos ao longo das últimas décadas.

Nos momentos que se seguiram ao nosso trabalho de organização de rolhas, fiz a relação das nossas lembranças ao longo do tempo com a quantidade de tempo que dedicamos às diversas áreas e papéis da nossa vida. Como é difícil mantermos o equilíbrio de dedicação entre tudo o que nos propomos a realizar – o trabalho, os filhos, nossos amores e amigos, os cursos, a igreja ou outros trabalhos voluntários. Quantas coisas fazemos…

Outro dia assisti a um vídeo da Indra Nooyi, ex-presidente da Pepsico, e a frase “Be careful about all the choices you’re making, because you will look back and it will hurt like hell. And it does” (Indra Nooyi: “I have to remind myself of what I lost”) me impactou como uma facada na alma. Em um outro vídeo, ao contar uma história sobre sua filha e os biscoitos que ela tinha que levar para a escola, ela afirma que não há equilíbrio possível entre as funções que ocupamos na vida. E sigo me perguntando: como fazer para equilibrar tudo o que desejamos?

Bem, tenho pensado e concluído que o equilíbrio que tanto almejamos é mesmo desafiador e nem sempre possível; nem sempre poderemos fazer tudo o que queremos caso almejemos uma vida equilibrada. O que precisamos é exercitar a escolha daquilo que precisamos em cada um dos diferentes momentos das nossas vidas e carreiras, pois todas as possibilidades que temos dificilmente caberão em nossas 24 horas diárias. Então, como lidar com o tempo que passa voando? Fazendo as escolhas corajosas a cada nova etapa da nossa vida. Digo que são corajosas porque muitas vezes as escolhas necessárias divergem das escolhas desejadas para nós mesmos. Por isso é necessário coragem para olharmos cuidadosa e gentilmente para dentro de nós e respondermos de maneira sincera à seguinte pergunta: “agora é hora de escolher o quê”? Ou ainda: “o que eu preciso fazer com dedicação máxima agora”?

As crises de sobrecarga nas organizações e a demanda por consultorias sobre priorização de atividades no tempo tem sido crescentes nos últimos 3 anos – nunca havia recebido tantos pedidos de apoio parecidos dos meus clientes. E o conteúdo que tenho desenvolvido com cada um deles se inicia com a análise do que é importante, do que é urgente e do que pode ser deixado para depois. Simples? Sim, muito simples. Mas só é simples de entender. Não é simples de executar. Priorizar requer renúncias. E assim como é difícil renunciar coisas ou atividades que queremos mas estão fora de hora, ainda não consegui jogar fora a enorme sacola que sobrou com rolhas que não tem nada escrito nelas, mas que certamente representam que em algum momento houve um brinde em celebração a um dia de trabalho bem vivido, ou a amigos que se encontram tanto que não escrevem mais nada na rolha.

Desejo que em 2025 suas escolhas não sejam separadas entre “profissionais e pessoais”, pois você é um ser humano uno, integral, pleno e não dividido em gavetas e compartimentos perfeitamente organizados. Que suas escolhas sejam integradas e representem os maiores e mais importantes desejos de realização para o Ano Novo que se inicia.

Que a paz, a abundância, a prosperidade e a felicidade sejam resultantes das suas escolhas esse ano!

Simone Maia

08 de janeiro de 2025