Proibido ficar triste

Essa é uma reflexão específica para quem se reconhece e se declara cristão, mas todos são bem-vindos à leitura!

Os últimos três meses tem sido tempos bem difíceis pra mim. Eu sei: os últimos três meses tem sido difíceis para milhões e milhões de pessoas pelo mundo afora. Mas quero falar de mim. E só por mim!

Além de um turbilhão de profundas mudanças internas que sucederam decisões complexas e desgastantes tomadas em 2020, o rol das dificuldades do primeiro tri de 2021 inclui a perda de um tio amado para o câncer e da minha tia querida mais próxima para a COVID. Ao mesmo tempo – 2 hospitais, 2 boletins médicos, 2 UTIs e notícias catastróficas a cada dia, acelerando o coração a cada vez que meu celular recebia as mensagens nos dois grupos de Whatsapp da família. Duro. Difícil. Indigesto. Incompreensível. E dolorido. Muito dolorido.

Os dias perderam a cor e a graça. A angústia das perdas, o medo insano da doença ameaçadora chegando bem pertinho de mim tirou a alegria de qualquer encontro, de qualquer saída para fazer qualquer coisa na rua. Parei de convidar. Parei de sair. E eis que o lockdown aconteceu dentro de mim. A solidão profunda, fruto de mais de um ano de trabalho remoto em uma casa vazia se intensificou. Na falta do que fazer e com uma casa pela frente para construir, me joguei no trabalho com uma intensidade que não se faz ideia. Prazer, conquista, satisfação e fuga.

No meio disso tudo, de vez em quando ousava responder algo real à tradicional pergunta brasileira:

– Oi, Simone! Tudo bem?

– Não!

As reações dos interlocutores variaram do silêncio aos telefonemas. Durante o telefonema reativo de um amigo muito amado, eu desfiava meu terço de lamentações quando de repente ele amorosamente respondeu algo mais ou menos assim:

– Ah não! Quero ver você assim não! Quero seu otimismo de sempre!

Essa frase bateu dentro da minha alma cristã como uma pedra de chumbo. Os mantras dos ‘crentes’ e os versos bíblicos utilizados para tecê-los ecoaram dentro de mim por dias. Querem saber alguns? Vamos lá!

  1. Fica assim não!
  2. Fica triste não!
  3. Deus é bom! Deus é sempre bom!
  4. A alegria do Senhor é a nossa força!
  5. A tristeza pode durar uma noite, mas a alegria vem ao amanhecer.
  6. Alegrai-vos sempre no Senhor. Outra vez digo: alegrai-vos no Senhor.
  7. Deus vai te dar graça. Fica firme.
  8. Tenha fé!

Eu poderia seguir tecendo uma lista capaz de tomar a próxima página inteirinha, mas hoje escrevo para dividir com vocês uma reflexão diferente. Quero refletir o contrário, o controverso, o oposto, o inverso.  Hoje eu quero falar da tristeza e fazer coro com milhares de pessoas gritando coisas assim:

  1. ME DEIXA FICAR TRISTE!
  2. EU ESTOU TRISTE.
  3. MORREU GENTE QUE EU AMAVA.
  4. EU ESTOU COM MEDO.
  5. ME DEIXA EM PAZ!
  6. DÁ UM TEMPO PRA MINHA ALMA!

Hoje eu só quero lembrar aos meus irmãos cristãos que “Jesus chorou” e eu e você temos o direito de chorar também. Quero lembrar que Ele também pediu para não morrer porque estava com medo. E quero lembrar que nós ainda não estamos vivendo em “ruas de ouro com mar de cristal” e que a bagaceira aqui no asfalto é severa. Dá pra chorar todo dia se quiser. É permitido ficar triste, gente. Eu e você não precisamos de um sorriso interminável no rosto. Ninguém virou anjo ainda, apesar de alguns se comportarem como gente com asa.

Precisamos urgentemente aprender a diferença entre ESTAR triste e SER triste, e assim podermos viver nossos processos emocionais com tranquilidade e equilíbrio. A saúde emocional é fruto da autoconsciência e a empatia – ou a compaixão, para usar a palavra bíblica – só é real e possível quando compreendemos nossos ciclos internos e nos autorizamos a vive-los inteiramente. Não precisamos fingir alegria infinita. Esse dia da felicidade eterna ainda não chegou.

Querem saber um pouco mais acerca das minhas semanas subsequentes? 20 dias depois da morte da minha amada tia Esther que não resistiu à COVID, minha mãe me liga com voz estranha e meu irmão me manda uma mensagem curta, fria e suspeita. Atendi minha mãe só pra dizer que não poderia falar. Eu estava a 40 minutos de terminar um treinamento online que eu estava facilitando. Não sei como cheguei ao fim. Eu já sabia: alguém da lista dos mais amados estava com COVID. Terminei meu treinamento não sei como, e retornei a mensagem do meu irmão. Telefone na mão, coração na boca, escutei:

– “Irmã, eu, a Jaque e a Luisa estamos com COVID”.

O chão do meu jardim parecia se abrir debaixo de mim. Como assim? Ainda não terminei de processar a merda anterior! E soltei para mim mesma um sonoro e conhecido “Jesus, misericórdia! Minha mãe não vai aguentar isso”. E os próximos dias passaram no sufoco e na dor da evolução da doença que pegou meu amado irmão de jeito. Contei os dias com minha cunhada, aprendi a entender laudos de exames e tomografias, choramos ao telefone e clamei a Deus a cada dia para meu amado Dinho não vomitar o pouco que estava comendo; e eis que ele saiu do perigo. Ufa! “Obrigada, Deus”. Suspirei.

Uns 5 dias de alívio se passaram e chegou o dia do aniversário da nossa filha Luciana! Programei um dia gostoso e cheio de detalhes dignos da minha habilidade festiva e alegre. Na noite anterior saímos rapidamente para comprar presentes (apesar de ter me sentido temerosa no shopping) escolhi um restaurante especial e no dia “D” saí de casa alegre e saltitante, me sentindo feliz depois de muito tempo. Entrei no carro e dirigi cantando enquanto escutava alguma música boa até chegar na porta do restaurante e encontrar o Luciano, meu Amor, que me disse assim:

– “Não chegue perto de mim. Minha garganta está doendo”.

Naquele momento o céu fechou em tons de cinza de novo. E hoje é o nono dia em que o vírus chegou aqui mesmo dentro da minha casa. Não poderia ser mais perto – no meu quarto, na minha cama, no meu amor. Me encontrou cansada e está me deixando exausta. Saudável e livre da peste, eu escolho cuidadosamente a dieta e cozinho para ele com amor (leiam o depoimento maravilhoso do Luciano hoje mais cedo em http://cafecomdeus.com.br/2021/05/08/o-paradoxo-das-lagrimas/, limpo, lavo, esfrego o chão com água sanitária, subo e desço a escada com bandejas limpas e contaminadas com um amor servidor que transborda em forma de força e disposição para fazer o que precisa ser feito. E tá tudo bem!

Entendeu? Então, não me diga que eu não posso me sentir triste. Não diga a ninguém! Não me diga para eu ficar alegre. Não agora. Não me acelere. Eu já sei que Deus cuida de mim e que é Ele mesmo que me dá paz em meio à tristeza. Mas paz e alegria são coisas muito diferentes. A paz não vai embora quando a tristeza chega. Precisamos conhecer e diferenciar nossos sentimentos para podermos olhá-los de frente e vivenciá-los um a um, sem cobrança. Eu me incluo na lista do aprendizado. Precisamos ser empáticos e compassivos como o Mestre, que não julgava, mas só amava.

Ah! E ficava triste.

Simone Maia

Brasília, isolada em quarentena, 08 de maio de 2021.

Um comentário sobre “Proibido ficar triste

  1. É isso, Simone!
    Compartilho dos teus sentimentos. Temos liberdade e direito de ficarmos alegres ou tristes e processarmos cada uma dessas situações.
    Que o SENHOR nos dê força para atravessarmos cada vau que se nos apresente!
    Te amamos!

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